A empatia em desuso

A empatia em desuso

Por Patricia Iara

Vivemos em uma época em que todos gostam de falar sobre empatia, mas poucos estão realmente dispostos a praticá-la.

É fácil demonstrar solidariedade quando isso não exige tempo, esforço ou envolvimento. Difícil é perceber a dor do outro e decidir ajudar, mesmo sabendo que aquele problema não é nosso. Talvez seja justamente aí que a empatia se torne genuína: quando não temos nenhuma obrigação, mas ainda assim escolhemos não virar o rosto.

Tenho a impressão de que as relações estão cada vez mais condicionadas à conveniência. Queremos amigos felizes, disponíveis e divertidos. Pessoas que aceitem nossos convites, celebrem nossas conquistas e deixem nossos dias mais leves. Mas, quando esse amigo atravessa uma crise, enfrenta uma doença, perde o emprego ou simplesmente não consegue mais esconder a tristeza, muitos se afastam.

Amigo bom parece ter se tornado sinônimo de amigo sem problemas.

Gostamos da companhia, mas nem sempre estamos dispostos a carregar, por alguns instantes, uma pequena parte do peso que o outro já não consegue sustentar sozinho. Dizemos que cada pessoa deve resolver a própria vida, como se oferecer apoio significasse assumir para sempre uma responsabilidade que não nos pertence.

Não significa.

Ajudar não é resolver tudo pelo outro. Às vezes, ajudar é ouvir sem julgar. É fazer uma ligação, oferecer uma carona, acompanhar em algum lugar ou simplesmente perguntar: “O que eu posso fazer por você?”. Pequenos gestos não mudam todos os problemas, mas podem mudar completamente a forma como alguém os atravessa.

Essa ausência de cuidado também aparece nas relações entre homens e mulheres.

A independência feminina foi uma conquista necessária. A mulher aprendeu a trabalhar, decidir, sustentar-se e ocupar espaços que durante muito tempo lhe foram negados. No entanto, em algumas relações, essa autonomia passou a ser usada como justificativa para o abandono emocional: “Ela é forte”, “ela sabe se virar”, “ela não precisa de ninguém”.

Mas ser independente não significa não precisar de cuidado.

Uma mulher pode pagar as próprias contas, dirigir o próprio carro e resolver os próprios problemas. Ainda assim, pode desejar um homem presente, gentil e disposto a ajudá-la — não por considerá-la incapaz, mas porque parceria também se demonstra nas atitudes.

Da mesma forma, o homem não precisa ser o único responsável por proteger, sustentar ou solucionar tudo. Ele também precisa ser acolhido e cuidado. A igualdade não deveria retirar a delicadeza das relações. Pelo contrário: deveria ensinar que ambos podem dividir responsabilidades, oferecer apoio e reconhecer quando o outro está cansado.

Talvez o que esteja caindo em desuso não seja exatamente o feminino ou o masculino, mas o cuidado.

Confundimos liberdade com indiferença, força com solidão e independência com a obrigação de dar conta de tudo sozinho. Criamos relações nas quais ninguém quer parecer vulnerável e, ao mesmo tempo, ninguém quer assumir o risco de se envolver profundamente com a vulnerabilidade do outro.

A empatia não exige que abandonemos nossa vida para viver os problemas de alguém. Ela pede apenas que não percamos nossa humanidade diante da dor que não é nossa.

Porque, em algum momento, todos nós precisaremos de uma mão estendida. E talvez, quando esse dia chegar, o que mais desejaremos encontrar seja alguém que não pergunte primeiro se o problema lhe pertence, mas que simplesmente diga:

“Eu estou aqui. Como posso ajudar?”

Patricia Iara

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