DIREITO DO HOMEM

DIREITO DO HOMEM

 

Sete horas da manhã. A cidade desperta bocejando. O café ainda está no fogo, os ônibus seguem lotados e os relógios cumprem sua missão ingrata de lembrar que ninguém nasceu para dormir até mais tarde.

 

Diante dos portões das fábricas, porém, acontece algo estranho. Os operários chegaram no horário, mas esqueceram um detalhe: entrar. Permanecem do lado de fora, conversando em pequenos grupos, gesticulando, fumando um último cigarro, enquanto a sirene, acostumada a mandar em tanta gente, toca para ninguém.

 

Na noite anterior, os sindicatos haviam decidido que o trabalho esperaria. Afinal, reivindicações antigas também têm o direito de envelhecer antes de serem atendidas.

 

Logo surgem os piquetes. Alguns chamam de convencimento; outros preferem chamá-los de persuasão mais… enfática. Democracia tem dessas sutilezas semânticas.

 

Antes do meio-dia, todas as máquinas silenciam. E é curioso perceber que só então muita gente descobre que o trabalhador existe. Enquanto produz, ele é apenas um número na folha de pagamento. Quando cruza os braços, transforma-se em manchete de jornal, preocupação de empresários, assunto de economistas e motivo de pronunciamentos inflamados de políticos que, curiosamente, jamais perderam um único dia de salário por falta de acordo.

 

As manchetes aparecem em letras garrafais. Os comentaristas analisam, os especialistas explicam, os apresentadores gesticulam diante das câmeras como se estivessem resolvendo o problema apenas movendo as mãos. A polícia reforça o efetivo, líderes sindicais negociam, representantes patronais calculam prejuízos, e todos descobrem, de repente, a urgente necessidade do diálogo — aquele velho conhecido que costuma ser convidado apenas quando o conflito já se instalou.

 

Dias depois, quase sempre chega um acordo. Uns comemoram, outros reclamam, e a cidade volta ao seu ritmo habitual, como se nada tivesse acontecido.

 

A greve jamais será um espetáculo bonito. Ela incomoda, atrasa, gera perdas e desperta paixões. Mas foi exatamente para isso que nasceu: para incomodar quem nunca ouviu os pedidos feitos em voz baixa.

 

O curioso é que muitos defendem apaixonadamente os direitos do homem… desde que sejam os seus. Quando o direito pertence ao outro, logo ganha um novo nome: exagero, abuso, transtorno ou ameaça à ordem.

 

Talvez seja essa a maior ironia da nossa civilização: todos gostam da palavra “direitos”. O problema começa quando alguém decide exercê-los.

 

Professor Pedro Troche González

Pedro Troche González

Saber mais →

Deixe um comentário