A síndrome de Serena Joy

Serena Joy cultiva rosas que não pode cortar. Essa é a imagem que fica, mais do que qualquer sermão que ela fizesse antes de Gilead existir, mais do que os programas de televisão onde pregava a submissão como destino biológico das mulheres. Ela ajudou a desenhar o jardim que hoje a aprisiona e agora se senta nele com as mãos cheias de terra e nenhum poder real sobre o que planta. É fácil, e é sedutor, ler essa imagem como tragédia pura. Difícil é lembrar que a mesma mulher que chora presa no próprio jardim é a que segura os pulsos de Offred durante a Cerimônia, a que a humilha, a que barganha cigarro e informação sobre a filha como quem barganha objeto, a que trata o corpo da outra como instrumento de um projeto que ela mesma ajudou a fundar.

Atwood não deixa isso escapar. Serena foi cantora gospel, depois porta-voz de um movimento que defendia o lar como lugar natural da mulher, muito antes de esse lar virar prisão para ela também. A ironia não a redime, ela a incrimina. É Serena quem propõe o arranjo com Nick, quem decide quando Offred pode ou não jogar Scrabble escondido, quem controla o pouco de prazer intelectual que ainda circula naquela casa. Ela não tem o poder do Comandante, isso é verdade. Mas tem poder sobre Offred, exerce esse poder todos os dias, e escolhe, dentro da margem estreita que lhe resta, causar dor a uma mulher que tem ainda menos margem do que ela.

O que chamo de síndrome de Serena Joy é essa exigência quase automática de que toda mulher que sofre sob um sistema patriarcal precise, por isso, ser lida como irmã de outra mulher que sofre no mesmo sistema. Como se dor compartilhada fosse sinônimo de aliança compartilhada. Como se opressão estrutural apagasse escolha individual, cumplicidade, crueldade específica e dirigida contra um alvo específico. Serena sofre, sim. Isso não se resolve, não se perdoa, não se converte em sororidade só porque as duas usam vermelho e azul debaixo do mesmo céu.

A ideia de que mulheres formam uma comunidade natural de afeto tem uma genealogia que vale desmontar. bell hooks já escrevia, em Feminist Theory: From Margin to Center, que a noção de uma irmandade universal nasceu de um feminismo branco e de classe média que confundia a própria experiência com a experiência de todas as mulheres, apagando diferenças de raça e de classe e, principalmente, apagando o fato de que mulheres também oprimem mulheres, ativamente, com benefício próprio. Elizabeth Spelman, em Inessential Woman, vai no mesmo sentido: não existe uma mulher essencial, um denominador comum que transforme toda experiência feminina numa soma resolvida em unidade. Existem mulheres, no plural, ocupando posições diferentes dentro da mesma engrenagem, e algumas dessas posições incluem o poder de machucar quem está mais abaixo.

Há ainda outro lado disso, que é pensar a sororidade não como algo dado, mas como algo construído. Marcela Lagarde, que popularizou o termo no feminismo latino-americano, trata a sororidade justamente como resposta a um problema: o patriarcado nos educa para competir, desconfiar e rivalizar entre nós, e a sororidade seria o pacto político que se ergue contra essa educação, não a consequência natural dela. Um pacto pressupõe que as duas partes o assinem. Serena nunca assinou nada com Offred além de um contrato de posse. Não existe sororidade automática porque a sororidade, na própria definição de quem cunhou o conceito, nunca foi automática. Ela é conquista, é escolha renovada, e por isso mesmo pode ser recusada.

Simone de Beauvoir já apontava, em O Segundo Sexo, que a mulher pode ocupar o lugar de Outro em relação a outra mulher, que a cumplicidade com o sistema que a oprime pode, ao mesmo tempo, fazer dela instrumento de opressão de alguém mais vulnerável na hierarquia. Serena é Outro para o Comandante, mas é sujeito, com vontade própria e mãos próprias, quando o assunto é Offred. Audre Lorde insistia que as diferenças entre mulheres, de raça, de classe, de posição dentro de uma mesma estrutura de poder, precisam ser nomeadas e não dissolvidas numa unidade abstrata, porque fingir essa unidade é, na prática, proteger quem está em posição mais confortável às custas de quem está mais exposta.

Isso não é exclusividade da ficção. A historiadora Elizabeth Fox-Genovese documentou, em seu trabalho sobre a vida doméstica no sul escravista dos Estados Unidos, como senhoras de engenho, subordinadas aos maridos dentro do mesmo patriarcado da época, ainda assim exerciam violência cotidiana e deliberada contra mulheres escravizadas, sem que o gênero compartilhado produzisse piedade nenhuma. Wendy Lower, historiadora que estudou mulheres alemãs no aparato nazista, mostra mecanismo parecido em outro contexto: mulheres subalternas dentro de um regime, e ainda assim plenamente capazes de crueldade direta contra outras mulheres. Gênero não é passaporte ético. Nunca foi.

Acho que precisamos parar de esperar que toda luta compartilhada vire afeto. Duas mulheres podem estar do mesmo lado de uma trincheira histórica, sujeitas à mesma lei injusta, ao mesmo medo de andar sozinha à noite, e ainda assim uma pode ser cruel com a outra, pode usá-la, pode escolher o próprio conforto às custas do corpo da outra. Isso não invalida a luta. Invalida só a fantasia de que luta cria automaticamente amor, ou lealdade, ou perdão. Dá para reconhecer o inimigo comum e continuar odiando quem está ao meu lado, se quem está ao meu lado decidiu, com as próprias mãos, ser também parte do que me machuca.

Serena não me deve nada só por ser mulher, e Offred não deve a ela compreensão nenhuma só porque as duas vivem sob o mesmo regime. Talvez a lição mais dura do livro da Atwood não seja sobre o que os homens fazem às mulheres. Seja sobre o que algumas mulheres, com plena capacidade de escolha dentro de margens estreitas, escolhem fazer umas às outras. E sobre o nosso direito de nomear isso sem pedir desculpa por não sentir irmandade nenhuma.

Tamy Simões

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