SÓ PARA MAIORES DE 50+
Quando a depressão aperta o cerco, quando a grana acaba antes do mês, quando a solidão se torna uma visita inconveniente e persistente, quando o estoque de Cabernet chega ao fim, então me tranco num quartinho minúsculo que tenho em casa e me ponho a ouvir Casa das Máquinas, Secos & Molhados ou, em casos mais graves, volto a reler minha coleção de O Pasquim.
Foi assim que acordei hoje.
Enfiei-me no quartinho, acendi um incenso de alecrim — já que abandonei o cigarro e precisava substituir um vício por outro menos processado — e, ao acaso, apanhei um exemplar amarelado e empoeirado de O Pasquim – Um Jornal de Peralvilhos (Ano XI, nº 145, Rio de Janeiro, de 7 a 13 de dezembro de 1979 – Cr$ 20,00).
Meu xará, Pedro Ferreti, escreve o seguinte:
“Os incidentes em Florianópolis deram margem às interpretações mais loucas…”
(Segue a íntegra do texto original.)
“Os incidentes em Florianópolis deram margem às interpretações mais loucas. Para alguns militares foi coisa do Partido Comunista, pois Figueiredo um dia antes dissera que não topava legalizá-lo. Outros diziam que a culpa era da CIA. E outros de movimentos sionistas, inconformados com o estabelecimento da Organização pela Libertação da Palestina no Brasil. Acho o negócio mais simples: estudantes, office-boys, engraxates e motoristas de táxi “explodiram” em Florianópolis porque a barra anda pesadíssima neste país, com aumentos da gasolina de 58%, da energia elétrica de 55%, etc. A explosão na “pacata” Florianópolis é um retrato (ainda que exagerado) da insatisfação popular. E por mais que a SECOM tente burilar a imagem de Figueiredo, não custa lembrar que a realidade é mais forte que qualquer trabalho de marketing. Especialmente quando a panela de tanta gente está ficando vazia.
A desgraça desse incidente é que certamente ele será usado por certos setores do chamado Sistema para alardear que a abertura é perigosa, que o povo não está preparado para a democracia, etc. Acho o contrário. O incidente mostra que o povo está, isso sim, cada vez menos “preparado” é para continuar vivendo num regime autoritário, em que as decisões que mais afetam o seu dia a dia são tomadas nos gabinetes fechados do Planalto.
O comportamento de parte da imprensa quanto à divulgação do incidente foi melancólico. A autocensura comeu solta. A Rádio Tupi simplesmente não noticiou o incidente, por ordem direta da cabeça dos Associados, o obscuro senador pelo Espírito Santo JOÃO CALMON. Já a TV Globo não ficou muito atrás. Embora o incidente tenha sido de manhã, não falou nele no jornal das 19 horas. No das 20 horas também não ia dizer nada, mas no finalzinho divulgou apenas a nota oficial do governo lida por Cid Moreira num tom ridiculamente emocionado, que faria inveja ao próprio Figueiredo.
No jornal das 11 horas da noite a Globo deu apenas Figueiredo falando, dizendo que não admitia ofensas pessoais. Sobre os incidentes em si, nada. A nota oficial, por exemplo, caiu no vazio e muita gente não deve ter entendido que diabo era aquilo.
Isso é o que se chama informar bem a 40 milhões de telespectadores. A Rede Globo é, sem dúvida, poderosa. Mas ignorar os fatos, passar uma borracha neles, é simplesmente tolice.
Achar que a realidade é outra porque não apareceu no Jornal Nacional é e s q u i z o f r e n i a.”
Ao terminar a leitura, fiquei com a estranha sensação de que certas páginas envelhecem menos que seus leitores.
Os que já passaram dos cinquenta certamente se lembram dos incidentes de Florianópolis. Aos mais jovens, se houver interesse, qualquer dia eu conto. Claro que antes terei de consultar meus inúmeros exemplares de O Pasquim, verdadeiros arquivos arqueológicos de um Brasil que insistia em mudar sem jamais abandonar completamente seus velhos hábitos.
E assim terminou mais um dia de deprê.
Entre um incenso de alecrim, um jornal de 1979 e algumas lembranças que se recusam a morrer, descobri que a nostalgia continua sendo o antidepressivo mais barato do mercado.
Pedro Troche Gonzalez :::


