Criadores do Possível XXXII: “Já sei que ainda nada sei”, por Gianmarco Bisaglia

Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar…  (Gita, Raul Seixas)

A angústia existencial que sentimos no desejo de possuir todas as respostas sobre a vida e a morte, nos leva a um autoengano sobre a existência de um porto seguro, um espaço onde vamos ancorar nossa suposta tranquilidade e qualidade de vida.

Como diz o poeta Cazuza, “o tempo não para”, e a zona de conforto cristalizada pela nossa mente medrosa é uma bolha dentro de um universo de explosões e transformações contínuas. Nossas crenças, preceitos morais e mesmo os nossos traumas (conhecidos ou não), são uma sustentação frágil daquilo que acreditamos ser segurança.

O caminho talvez seja parar de afirmar coisas, assumindo para nós mesmos a nossa completa ignorância sobre a existência, sobre quem somos e o que de fato estamos a fazer com a nossa existência neste plano. Bem socraticamente!

Claro que esta ausência de certezas é apavorante – será que nunca chegaremos numa resposta definitiva? E quem falou que a suposta verdade existe? Quem cunhou o bem e o mal? Quem desenhou os tons de claro e o escuro? Em que momento estas externalidades se tornaram dimensões soberanas que regem nossa consciência?

Quando acreditamos dominar conceitos e verdades, e atribuímos supostos significados às coisas, rotulamos pessoas, situações e contextos, abrindo mão de todas as perspectivas e variáveis da inconstante transformação humana; nossa percepção da realidade de hoje não nos define, pois o contexto de amanhã e depois de amanhã será novo. E como se diz, quando um paradigma muda, tudo volta ao zero, e nossa experiência passada não garante as zonas de segurança do futuro.

Há quem acredite que o dinheiro, poder, fama, amigos, status, até a saúde, poderão segurar nossa consciência inquieta – estas coisas apenas nos distraem do destino de compreender e despertar a centelha divina dentro de nós, ávida de transformação e magia. Nós somos o livro a decifrar, somos a inspiração incessante, a energia que sentimos cada vez mais, quando escutamos cada vez menos o mundo externo.

“Sei que nada sei” é ponto de partida para administrar nossa cognição limitada – só quem assume os próprios limites consegue entrar na senda da iluminação. Todas as respostas estão dentro de nós – é só aprender como tirar as nossas vendas!

Gianmarco Bisaglia

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