Há algo de profundamente irônico no 8 de março.
O dia amanhece lilás, amanhece marketing, amanhece com vitrines enfeitadas e mensagens plastificadas sobre “força feminina”. Nas empresas, distribuem-se rosas; nas redes, multiplicam-se frases sobre protagonismo. Enquanto isso, no Brasil de 2026, uma mulher continua sendo assassinada por razões de gênero a cada poucas horas. A ironia é que o 8 de março se tornou, muitas vezes, um dia de celebração despolitizada, quando sua origem é exatamente o oposto: luta, greve, incêndio, exploração, morte. O Dia Internacional da Mulher não é tributo à “feminilidade”, mas herança direta das mobilizações operárias do início do século XX, da Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910, proposta por Clara Zetkin, e das disputas por sufrágio e direitos trabalhistas. Quando a ONU o instituiu em 1975, não apagou sua raiz conflitiva: deveria tê-la ampliado.Mas o Brasil contemporâneo parece ter desenvolvido uma habilidade perversa: a de comemorar enquanto enterra.A violência que não entra nos discursos corporativos
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, do Atlas da Violência e do DataSenado convergem em um ponto: a violência letal contra mulheres no Brasil é estrutural, persistente e racializada.O feminicídio, tipificado pela Lei nº 13.104/2015, não diminuiu o fenômeno; apenas lhe deu nome. Nomear é gesto político, mas não basta. A maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa, perpetrada por companheiros ou ex-companheiros. A casa, esse espaço romantizado como refúgio moral, é, para milhares de mulheres, o cenário da execução. A criminologia feminista já alertava há décadas: como mostrou Heleieth Saffioti, a violência contra a mulher expressa a aliança entre patriarcado, capitalismo e racismo estrutural. Não se trata de “casos isolados”, mas de um sistema que naturaliza o controle do corpo feminino. O conceito de interseccionalidade, elaborado por Kimberlé Crenshaw, ajuda a compreender por que mulheres negras seguem sendo as principais vítimas. A taxa de homicídios entre elas é muito superior à das mulheres não negras. Gênero, raça, classe e território não se somam; se entrelaçam.Ainda assim, no 8 de março, as campanhas publicitárias raramente mencionam isso.A política do silêncio e a pedagogia da impunidade
O Brasil convive com altos índices de subnotificação da violência doméstica. Dependência econômica, medo, vergonha, desconfiança nas instituições e morosidade judicial criam um ciclo que aprisiona mulheres ao agressor.
A Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) é marco internacional no enfrentamento da violência doméstica. Seu nome homenageia uma sobrevivente de duas tentativas de feminicídio cometidas pelo marido. Contudo, sua eficácia depende de políticas públicas sólidas, financiamento contínuo, delegacias especializadas, casas-abrigo e formação de agentes do sistema de justiça. O enfraquecimento dessas políticas, apontado por diversas pesquisas, afeta diretamente a prevenção da violência. Como alerta a criminologia crítica: leis sem estrutura são monumentos vazios. Eis outra ironia: enquanto o 8 de março gera discursos institucionais, muitas cidades brasileiras ainda não dispõem de delegacias da mulher funcionando 24 horas.
O feminicídio como linguagem do poder
O feminicídio não é apenas um assassinato. É uma mensagem.Ele comunica que a autonomia feminina ainda é percebida como ameaça. Estudos mostram que grande parte desses crimes ocorre no momento da separação, o instante em que a mulher reivindica sua liberdade.A literatura feminista latino-americana há muito denuncia essa lógica. Rita Segato, por exemplo, vê o feminicídio como crime de poder e pedagogia da crueldade: um ritual de reafirmação de hierarquias. Não se mata apenas um corpo; busca-se disciplinar todos os outros.
8 de março: celebração ou anestesia?
O capitalismo tardio tem talento para neutralizar críticas. O que nasce como denúncia vira slogan; o que surge como revolta, vira brinde corporativo. A filósofa Nancy Fraser observa que parte 8 de março: flores sobre estatísticas de sangue pautas feministas foi cooptada por uma lógica neoliberal que prega “empoderamento” individual enquanto ignora desigualdades estruturais. O 8 de março comercial é a versão higienizada de uma história de enfrentamento.
Fala-se de liderança feminina, mas não das mulheres que limpam os escritórios das líderes.
Fala-se de autoestima, mas não de redistribuição.
Fala-se de flores, mas não de necropolítica.A ironia finalO 8 de março não deveria ser confortável.
Deveria provocar. Deveria interromper. Deveria obrigar o país a encarar os números que insiste em normalizar.
Porque há algo de obsceno em celebrar mulheres enquanto o Estado falha em protegê-las. Há algo de violentamente contraditório em postar homenagens enquanto a violência doméstica segue tratada como conflito privado.
Talvez a pergunta não seja “como comemorar o 8 de março?”, mas “o que significa celebrar num país que ainda enterra mulheres por serem mulheres?”.
Respeitar verdadeiramente o 8 de março exige mais que flores: exige orçamento público, educação de gênero, políticas interseccionais, compromisso institucional e transformação cultural.
Até que o Brasil deixe de figurar entre os países com maiores taxas de feminicídio, cada rosa entregue neste dia carregará uma sombra.
E talvez a ironia mais dolorosa seja esta: o 8 de março só cumprirá seu sentido histórico quando não for mais necessário como denúncia.


