Como os meninos aprendem a ser violentos?

A violência masculina não começa no punho.

Começa na pedagogia.

A pergunta que sustenta este texto não é “por que homens são violentos?”, como se estivéssemos diante de uma falha biológica. A pergunta é: que tipo de formação emocional, simbólica e política produz homens que transformam dor em agressão e insegurança em domínio?

Ninguém nasce agressor.

Torna-se.

I. A primeira mutilação: matar o sentir

Em A Vontade de Mudar, bell hooks escreve:

“O primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é contra as mulheres. Ele exige que os homens pratiquem uma automutilação psíquica — que matem as partes emocionais de si mesmos.”

Essa é a chave.

Antes de qualquer agressão exterior, há uma amputação interior. O menino aprende cedo que vulnerabilidade compromete sua masculinidade. Aprende que chorar é falhar. Que medo é vergonha. Que pedir ajuda é fraqueza.

O patriarcado não ensina apenas a dominar.

Ensina a se endurecer.

Quando emoções não encontram linguagem, encontram corpo. A tristeza vira irritação. A frustração vira explosão. A insegurança vira necessidade de controle.

Raiva é a única emoção socialmente autorizada.

II. Masculinidade como prova constante

Em Guyland — O Mundo dos Jovens Homens, Michael Kimmel afirma:

“A masculinidade precisa ser constantemente provada. É um teste interminável.”

Ser homem não é um estado; é uma performance contínua.

Desde cedo, meninos são ensinados a se diferenciar do feminino. O pior insulto na infância não é “violento” — é “menina”. É “afeminado”. É qualquer coisa que os aproxime daquilo que a cultura desvaloriza.

A masculinidade hegemônica se constrói pela negação.

Já em Masculinidades, Raewyn Connell explica:

“A masculinidade hegemônica não é um tipo fixo de caráter. Ela é a masculinidade que ocupa a posição dominante em um determinado padrão de relações de gênero.”

Ou seja: trata-se de uma posição de poder, não de uma essência.

Quando homens não alcançam esse ideal — sucesso financeiro, controle emocional, potência sexual — o sentimento que emerge é inadequação. E inadequação, quando proibida de existir como fragilidade, se transforma em ressentimento.

III. Violência simbólica: o brutal que parece natural

Em A Dominação Masculina, Pierre Bourdieu define:

“A violência simbólica é essa violência suave, insensível e invisível para suas próprias vítimas.”

Ela opera quando normas são tão internalizadas que parecem naturais.

O menino que ouve “não leva desaforo para casa” aprende que reagir com agressividade é legítimo. O adolescente que é ridicularizado por demonstrar sensibilidade aprende que deve endurecer.

A violência não aparece como escolha.

Aparece como coerência.

IV. O Brasil e seus números

No Brasil, os dados não deixam espaço para romantização.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 90% dos autores de homicídio no país são homens. As vítimas também são majoritariamente homens jovens — sobretudo negros, moradores de periferias.

A masculinidade brasileira é atravessada por desigualdade racial, exclusão econômica e encarceramento em massa. A violência não é apenas individual; é estrutural.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que milhões de brasileiros já relataram ter sofrido violência sexual ao longo da vida — incluindo homens, cuja subnotificação é expressiva. Muitos não denunciam por vergonha ou medo de terem sua masculinidade questionada.

O mesmo sistema que produz agressores produz homens incapazes de reconhecer quando são vítimas.

V. Cultura digital e masculinidade ressentida

Se antes a socialização masculina acontecia majoritariamente na família, na escola e na rua, hoje ela também acontece nos algoritmos.

Comunidades digitais que promovem discursos antifeministas e ressentimento de gênero oferecem pertencimento a jovens inseguros. Elas partem de dores reais — solidão, rejeição, fracasso amoroso — e oferecem uma narrativa sedutora: a culpa é das mulheres. Ou do feminismo. Ou de uma suposta decadência moral.

O mecanismo é eficaz porque simplifica o mundo.

Connell já advertia que masculinidades se reorganizam historicamente em momentos de crise. Quando estruturas sociais mudam, identidades também tremem. O ambiente digital potencializa essa instabilidade, transformando frustração em ideologia.

A radicalização não começa com ódio declarado.

Começa com vídeos sobre “como ser um homem de valor”.

Começa com a promessa de restaurar autoridade.

Começa com a sedução do controle.

A violência, nesses espaços, é apresentada como reafirmação identitária.

VI. Masculinidade ferida e a busca por intensidade

Na literatura, vemos essa tensão dramatizada.

Em Clube da Luta, Chuck Palahniuk cria personagens que buscam na dor física uma forma de recuperar sensação. A violência aparece como ritual de pertencimento e catarse.

Homens que não sabem nomear o vazio procuram impacto.

A ficção revela aquilo que a sociologia descreve: quando a identidade masculina é construída sobre repressão emocional, a agressão pode parecer autenticidade.

VII. É possível ensinar outra coisa?

Bell hooks insiste que o feminismo é também um movimento de libertação masculina. Ela afirma que homens foram “feridos pelo patriarcado”, treinados para desconfiar do próprio coração.

Educar meninos para a linguagem emocional não é enfraquecê-los.

É oferecer ferramentas.

Ensinar que conflito se resolve com diálogo.

Que vulnerabilidade não diminui.

Que cuidado não é fraqueza.

Que masculinidade não precisa ser sinônimo de ameaça.

Conclusão

Meninos aprendem a ser violentos quando ensinamos que sentir é falhar.

Quando ensinamos que dominar é vencer.

Quando ensinamos que perder status é humilhação.

Mas também podem aprender outra coisa.

Podem aprender que força é sustentar responsabilidade.

Que coragem é pedir ajuda.

Que dignidade não depende de controle.

A pergunta não é apenas “por que eles são violentos?”.

A pergunta é: que tipo de homens estamos formando — e quem está disposto a mudar essa pedagogia?

Tamy Simões

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