Escrever não é um ato mecânico e sim intelectual

A escrita não vem depois do pensamento, ela é parte do pensamento.
A escrita é valiosa por uma série de fatores, mas também porque é no processo de escrever, que testamos argumentos, reavaliamos quem somos, o que buscamos, o que aceitamos ou o que discordamos.
E tudo isso acontece perante um refinamento de ideias.
Mas, quando esse processo é terceirizado para uma máquina, mesmo que parcialmente, diferente do que muitos acreditam, não estamos ganhando eficiência, e nem mesmo tempo; estamos abrindo mão de um exercício essencial de clareza mental.
A discussão sobre o uso da Inteligência Artificial tem recebido destaque a cada dia.
Enquanto muitos criticam fervorosamente e outros defendam com “unhas e dentes”, a novidade tecnológica tem estado presente cada vez mais em diferentes áreas. E digo mais, tem sido o nervo exposto do jornalismo e, mais amplamente, da vida intelectual.
Não posso dizer que eu seja totalmente contra o uso da mais recente tecnologia, porque sou a favor do avanço tecnológico, mas não me apetece ser totalmente dependente de nenhum deles.
O analógico é o que ainda mais me encanta e a presença para mim é insubstituível.
Acredito que o grande desafio não seja a IA em si, mas o que ela faz com a escrita, com o pensamento e com a responsabilidade pública.
Diferentemente do que afirmam, o uso da mesma não é neutro.
Sustentar a ideia de que a IA colabora apenas na organização, estruturação ou lapidação dos textos, é corroborar para uma meia-verdade confortável, porque escrever não é apenas transpor ideias já prontas, escrever é pensar.
Quando ideias “brutas” são entregues sob o comando de uma IA, acontece automaticamente uma padronização em que ela não apenas organiza, como intervém, molda o raciocínio.
E esta dependência disfarçada de dinamização de tempo, apenas potencializa o que já vem acontecendo há tempos; as pessoas estão com preguiça de pensar.

Não importa quais sejam as justificativas, a era digital entregou velocidade e as pessoas não conseguem e não aceitam parar, nem mesmo diminuir um pouco toda esta velocidade. Afinal, o ditado popular prega que “Tempo é dinheiro”.
Mas, o fato é que essa “organização” que a Inteligência Artificial faz nos textos, cria uma ilusão perigosa de que pensar é opcional, desde que o resultado soe coerente.
No entanto, coerência sintática, não é sinônimo de profundidade intelectual e nem mesmo de identidade própria.
Um texto pode ser fluido, gramaticalmente correto e ainda assim raso, totalmente genérico. Os algoritmos podem até gostar, mas e o público real?
Não precisamos robotizar nossos pensamentos, muito menos nossa escrita. Identidade autoral é algo que transcende o palco da confiança do público, traz autonomia como cidadão do mundo.
Há também um impacto que por enquanto pode parecer menos visível, que é a padronização do pensamento. E o resultado é um verdadeiro empurrão de opiniões para um centro confortável, gerando uma grande homogeneização e consequentemente um empobrecimento do debate público.
Aumentamos o tempo de tela, mas queremos diminuir o tempo de pensar. E “se discordarem do que eu penso… Ai deles!” afinal, “opositores não divergem, são inimigos”. (Mas, isto é um assunto para outro texto.)

Neste final de semana, duas publicações despertaram a minha atenção.
No threads uma publicação que criticava o sistema de locação Arbnb, poderia ter passado despercebido como tantos independente do conteúdo em si, mas não foi o que aconteceu.
O conteúdo foi um verdadeiro sucesso de críticas negativas.
Viralizou sim, mas porque quatro frases foram escritas com o uso de IA.
O assunto dominante foi a necessidade da ferramenta para escrever uma simples opinião e em poucas linhas.
O alarmante neste caso não foi apenas a facilidade com a qual o público identificou o uso da tecnologia nestas poucas linhas, mas o autor do post ter disparado uma sequência de verborragia para quem não gostasse de publicações feitas por meio de IA.
O autor que no threads fala sobre tecnologia e aleatoriedades, como o mesmo define,  assumiu orgulhosamente que usa IA com frequência, até mesmo em postagens mais simples como das redes sociais, mas tudo isso sem deixar de proferir ofensas a quem pensasse o contrário.
Já na Folha de São Paulo, deste domingo, 08 de fevereiro, a responsável pelo Ombudsman (um canal que representa os leitores), a jornalista Alexandra Moraes, escreveu sobre a queixa de um assinante do jornal à colunista do mesmo, Natalia Beauty.  O leitor alertou que 66% do conteúdo dela vinha de IA.
Alexandra então, checou e constatou por meio de programas detectores, que a maioria dos textos de Natalia na verdade apontavam quase 100% de IA. Ela afirma que embora estes programas não sejam totalmente confiáveis na identificação e classificação dos textos, era sim preocupante que colunas de jornais fossem classificadas em níveis máximos de Inteligência Artificial.
Perguntada sobre, Natalia Beauty confirmou que realmente faz o uso de IA em seus textos e que a Folha de São Paulo em Setembro de 2023, incluiu o verbete Inteligência Artificial no Manual da Redação, autorizando profissionais a utilizarem aplicações de IA em seus trabalhos.
Embora houvesse ressalvas sobre não eximir responsabilidade pelo resultado final dos textos, a jornalista Alexandra finalizou deixando uma questão sobre os dois extremos em que os leitores se encontram diante de tais fatos:

“De um lado, textos demasiado humanos cheios de burocratês e erros; do outro composições “gepetaicas” de formas corretas, genéricas e vazias.” Alexandra Moraes

Penso que é fundamental saber “separar o joio do trigo”, porque questionar o uso de IA em textos jornalísticos, por exemplo, não reduz a necessidade de cautela com o saber escrever e sobre não escrever qualquer coisa e de qualquer jeito.
Não queremos extremos nem de um lado e nem de outro. Mas, a falsa tranquilidade e argumento de profissionais da área, de que melhorar a forma e otimizar tempo não ameaçam a autoria, nem a ética, e muito menos a qualidade do tempo, é extremamente preocupante. Esta narrativa ignora algo fundamental: “Escrever não é um ato mecânico, é um ato intelectual.”
Essa renúncia no jornalismo é particularmente grave. Textos jornalísticos, sobretudo colunas assinadas, não são apenas veículos de informação, mas de interpretação da realidade.
Cada detalhe usado numa pauta, cada escolha, o que ganha destaque, e principalmente o tom adotado, carrega responsabilidade pública.
E a suposta “organização” feita por IA interfere nessas escolhas. Forma e conteúdo não são compartimentos separados.
Outro ponto crítico, sem dúvida é a relação com o leitor.
A credibilidade do jornalismo está na confiança de que há um autor responsável por aquele raciocínio e quando não está claro o grau de interferência de uma máquina, essa confiança se fragiliza.
Mesmo que os fatos estejam corretos, a confiança se rompe. Afinal, quem pensou esse texto? Quem assumiu os riscos intelectuais que ele carrega?
Defender a importância de saber escrever não é saudosismo nem “tecnofobia” como podem tentar definir; é reconhecer que a escrita é uma competência formadora, não acessória.
E o atalho nestas condições, principalmente quando se torna uma “muleta” na escrita, impede o seu desenvolvimento.

A minha preocupação também se estende na literatura, uma vez que livros escritos inteiramente por IA estão sendo cada vez mais identificados, principalmente nos livros disponíveis digitalmente.
Embora a Inteligência Artificial não ameace os bons escritores e exponha os que nunca foram, a naturalidade com que muitos vêm aceitando livros escritos assim é alarmante.
Fico a pensar sobre o perfil de leitor que estamos formando quando normalizamos uma escrita produzida artificialmente e sobre o que muda na formação intelectual de quem ainda está em desenvolvimento de escrita.
Alfabetização real não é apenas sobre ler e escrever, mas sobre saber ler e saber escrever. O explícito e o implícito.
É fundamental que a ferramenta seja utilizada com parcimônia, senso crítico e autonomia. Mas a dependência dela confunde fluidez com qualidade e eficiência com pensamento. E o grande problema é não saber escrever sem ela.
Confesso que quando identifico minimamente o uso de IA seja num simples post de Instagram, sinto-me desmotivada. Já li textos de pessoas que admiro recheados de IA, e embora eu ainda não tenha perdido minha total admiração, não tenho lido seus textos como antes.
Querendo ou não, o mundo pede mais alma, mais calma e tudo que foge do natural, que burle o autoral, que não transpareça sua forte identidade, perde força e confiabilidade.
E num espaço público de influência, isso não é apenas uma limitação técnica, é uma falha ética. Porque quem escreve para muitos tem o dever de pensar por conta própria e pensar de verdade exige respirar, sentar e escrever…

Por Amanda da Silveira Lopes
Instagram @faroldaspalavras

Amanda da Silveira Lopes

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