A dor que surge por fatores inevitáveis dói, dói muito. Mas a dor que poderia ter sido evitada dói ainda mais

Não queremos ver mudanças emolduradas nas paredes ou em posts das redes sociais; é preciso ver a mudança ao sair às ruas.
O que há naquele que diz odiar a mentira, mentindo diariamente?
O que há no coração daquele que diz amar, praticando o ódio?
A sociedade cultiva a corrupção quando dá segundas chances na política, quando se conforma com a desigualdade social e econômica extrema, quando se cala diante da falta ou da precariedade do saneamento básico, quando aceita uma educação precária e se mantém distraída em meio ao frágil embate dos “bons” contra os “maus”.
Enquanto se vilaniza a oposição, esquece-se do mal que se cultiva dentro da própria casa.
“Se é de esquerda, não vale nada. Se é de direita, vale menos ainda”, como se a direção ocultasse o largo horizonte de corrupção que já se estende, e os crimes hediondos emaranhados na pobreza educacional e na desigualdade, não fossem alimentados por gente.
Os rastros da maldade são ferozes, mas são praticados por gente como a gente, seres que foram gerados por um útero, que tiveram boa criação, bons exemplos ou não, mas que, acima de tudo, veem diariamente a injustiça vestir-se do discurso: “Vamos seguir adiante. Amanhã será outro dia”.
Mas o amanhã sempre chega e a impunidade que se planta, cresce.
O que a sociedade tem a dizer sobre suas escolhas diárias reflete, arrasta o ontem para o hoje e dita possibilidades e impossibilidades do amanhã.

Em 2025, Orelha, um cão comunitário de dez anos, vivia feliz.
Sentia-se seguro, amado e livre na praia Brava, em Florianópolis.
Entretanto, mal findamos o primeiro mês do novo ano, já sentimos as mesmas dores da injustiça de ontem e de anteontem…
“2026 será um novo ano, com tudo para ser melhor.” Foi o que pensamos e desejamos na virada, agora há pouco. Mas, adolescentes se uniram e num ato brutal espancaram o cãozinho mascote da região e o abandonaram agonizando. Posteriormente, Orelha foi encontrado por populares e levado a uma clínica veterinária, onde precisou passar por eutanásia devido à gravidade dos ferimentos.
São muitos “Orelhas” sendo brutalmente espancados simplesmente por existirem, por serem o oposto de quem os maltrata, puramente inocentes.
E por mais difícil que pareça, um dia, os adolescentes que praticaram esse crime cruel e dilacerante contra o cãozinho, também foram inocentes.
E ainda, aos olhos da Lei Brasileira, menores de dezoito anos são inimputáveis, ou seja, não podem responder atrás das grades, não podem ser condenados a penas por crimes, mesmo pelos atos mais asquerosos, como os cometidos contra Orelha.
Não podem responder pelo crime que cometeram plenamente conscientes, mas podem escolher quem governará um país. Podem votar.
Isso já está sob o “poder” de escolha deles; é um direito garantido.
Mas, e o direito à vida do cãozinho Orelha e de tantos outros Orelhas?
Hoje foi com um cão. Amanhã, após se formarem na universidade ou em um curso técnico, tornar-se-ão os futuros “profissionais.”

 

De Florianópolis para o Distrito Federal

 

Três jovens técnicos de enfermagem assassinaram três pacientes que estavam internados em um hospital onde trabalhavam. Os três cúmplices.
Administraram medicamentos não prescritos na veia das vítimas, além de injetarem desinfetante, o que provocou várias paradas cardíacas fatais. E tudo isso por prazer ao sofrimento.
Foram mortes assistidas. Não saíram correndo logo em seguida.
Os pacientes vitimados estavam internados na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga.
João Clemente Pereira, 63 anos, Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, Miranilde Pereira da Silva, 75 anos lutavam pela vida, mas circunstâncias incompatíveis com a morte natural foram  mais fortes do que eles.
Infelizmente, o que mais temos visto, são adultos formados em uma carreira e mal formados em humanidade.
Em sã consciência, um cidadão do bem não aceita uma monstruosidade dessas com ninguém. Mas também não podemos nos indignar apenas dentro de nossas bolhas e deixar tudo por isso mesmo, adiando soluções para o amanhã mais uma vez.
Algo precisa ser mudado a partir de hoje. De agora.
Neste momento, mais um cãozinho está sendo maltratado.
O índice de maus-tratos a animais no Brasil é alarmante, com cerca de 30 milhões de animais domésticos em situação de abandono.
A negligência é a principal causa, acompanhada pelo aumento constante de denúncias.
Os tipos de violência mais citados são espancamento/agressões, envenenamento, abandono e atropelamento.
E, também neste instante, mais pessoas estão perdendo a vida pelas mãos de quem começou ferindo propositadamente um animalzinho.
Não podemos nutrir, nem mesmo indiretamente, uma sociedade que aceite que nada mais possa ser feito porque “o mundo é assim”.
O mundo do Orelha não era assim. Ele morreu confiando.
É preciso que confiemos em uma sociedade do bem, capaz de vencer os mais terríveis desafios.
E que essa união que temos visto por justiça ao Orelha, seja um grande passo entre tantos outros, rumo àquilo que não queremos mais que aconteça, que não aceitaremos mais.

Justiça pelo Orelha!

Pelos tantos Orelhas!

Justiça por João Clemente Pereira, Marcos Raymundo Fernandes Moreira e Miranilde Pereira da Silva!

Justiça por tantas e tantas vidas perdidas de forma tão cruel!

Por Amanda da Silveira Lopes

Instagram @faroldaspalavras

Amanda da Silveira Lopes

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