Depois de tantos relacionamentos com homens infiéis, emocionalmente irresponsáveis e acostumados a nos oferecer o céu no começo e o abandono emocional depois, é natural que algo dentro de nós se desconfigure. Porque não é apenas o fim de um relacionamento que fere — é a repetição do padrão. É a promessa quebrada. É o carinho que vira silêncio. É a atenção que vira “tanto faz”. É o “você está louca” usado para encerrar conversas que exigiam maturidade, não manipulação.
Muitas mulheres passaram, passam e ainda passarão pelo mesmo roteiro:
O início perfeito.
O encanto.
A conexão.
As falas doces.
O futuro prometido.
E depois, o sumiço emocional. A frieza. As dúvidas. As mentiras mascaradas. A sensação de estar sempre pedindo migalhas.
E, cada vez mais, ouvimos falar dele: o narcisista — o mestre do ciclo do abuso emocional. Encanta, suga, desestabiliza, e por fim culpa. Quando saímos de uma relação assim, levantamos. Sim, levantamos.
Nos curamos?
A grande pergunta é essa.
A cura emocional não é um ponto de chegada.
É um processo.
E esse processo só é verdadeiramente revelado quando encontramos o próximo homem.
Porque é no novo que as marcas antigas aparecem.
É no saudável que o trauma grita.
É no respeito que o medo se manifesta.
De repente, surge um homem que faz tudo aquilo que deveria ser regra — e não exceção:
Ele escuta.
Ele se importa.
Ele pergunta se você está bem.
Ele não te acusa, não te silencia, não te diminui.
Ele não foge quando você sente.
Ele não desvia quando você fala.
E, ainda assim, você pensa:
“Será que é verdade?”
“Será que ele vai mudar depois?”
“Será que estou sendo enganada de novo?”
“Será que vou sofrer mais uma vez?”
É duro admitir, mas o amor saudável assusta quem sobreviveu ao abuso.
O carinho desconcerta quem se acostumou com a indiferença.
A atenção desarma quem viveu na falta.
O respeito confunde quem sempre recebeu desdém.
A constância parece mentira para quem só conheceu entusiasmo inicial seguido de abandono.
A realidade é simples e dolorosa:
quando passamos muito tempo sendo tratadas como pouco, estranhamos quando alguém nos trata como muito.
E é por isso que a cura emocional só se confirma no encontro com o outro.
É no novo vínculo que percebemos onde ainda sangramos.
É no gesto gentil que identificamos a desconfiança.
É na palavra de afeto que sentimos o medo do engano.
É na presença sincera que surge a dúvida: “será que ele vai sumir depois?”
Mas esse desconforto não significa que estamos quebradas.
Significa que estamos despertas.
Que aprendemos.
Que agora vemos nuances que antes ignorávamos.
E, principalmente, que merecemos mais do que já aceitamos um dia.
A cura não é a ausência de medo.
É a capacidade de olhar para o medo e ainda assim permitir o novo.
É reconhecer que o saudável existe — e que você merece viver isso.
Sem pedir licença.
Sem se desculpar.
Sem esperar o pior de quem mostra o melhor.
Um homem que trata você com respeito e carinho não é milagre.
É normalidade.
É padrão.
É o mínimo.
Nós é que fomos ensinadas a acreditar que esse mínimo era demais.
Aos poucos, o coração entende:
O que parecia mentira é apenas amor real.
O que parecia engano é apenas cuidado.
O que parecia armadilha é apenas maturidade afetiva.
E o que parecia exceção… sempre deveria ter sido a regra


