Autor: Nilton Bustamante
Ah, você sabe bem: sou moldado em carne, sangue e paixão.
Não sou, nem consigo ser, apenas alma ou apenas pele.
Sou do avesso para quem me olha e cobra o que não posso oferecer;
Não tenho a paz — carrego guerras,
Guardo contradições.
E as palavras, ah, as palavras… elas não me permitem o vazio.
Suspendem-me no pau de sebo para que eu seja prenda de mim mesmo.
Se não soubesse, pensaria que as alturas servissem apenas à vertigem,
Mas elas existem para a salvação do voo,
Pela chance de crer-me mais leve que o próprio ar,
Que o próprio pensamento…
E quem sabe, num descuido, amar.
Ser vadio ao ponto de ter todo o tempo do mundo para a poesia;
Arriscar-se, deitar-se em papel branco
E dispor o que chamam coração (e suas cores)
No mesmo voo, na mesma vertigem, em tudo o que neste mundo
Possa ser contradição.
Mas olho nos olhos,
Até a raiz das vidas que ficaram para trás.
E quero que o amor esquecido e a gentileza envelhecida
Sejam, agora, novas manhãs:
Dessas que fazem o sorriso sorrir,
Que enternecem o gesto, o toque, o retoque…
Para sentir-se diferente, atraente.
Para olhar-se no espelho e ver a beleza que se quer mostrar.
Tudo tão perdidamente ingênuo
Que não haverá culpas,
Nem vendas, nem permutas;
Os sentimentos bastarão a si mesmos.
Hoje, quis dizer que meu coração bateu um pouco mais forte.
Acelerou um compasso,
Desafinado, talvez cansado,
Mas que ainda clama,
Ainda queima, arde e pede para fecharmos os olhos.
Deixar nascer o beijo
Como quem vem ao mundo:
Entre lágrimas acrobáticas — talvez medo, talvez o desconhecido —
E entregar-se a tudo o que for chamado VIDA!


