O mundo anda acelerado e exigindo que nós sejamos também.
O instantâneo não mergulha em profundidade e a profundidade necessita de tempo; este que cada vez mais tem se transformado ativamente em moeda de troca.
O novo luxo, agora tem sido o silêncio. Escolher as demandas do nosso próprio tempo é ter em mãos um poder que faz a diferença, principalmente porque nos devolve o controle dos nossos pensamentos, que a exigência pela rapidez coloca num modo de escassez automática.
Todos querem palco, quase ninguém mais quer ser plateia.
Os estímulos pelos quais somos submetidos nos encaminham para estes lugares, lugares de impulsividade e má gestão do nosso real tempo.
Produzimos, bem, ou não tanto quanto imaginamos. O volume acontece, a demanda cresce, mas perdemos em qualidade de vida e em liderança de nossos próprios passos.
Somos uníssonos ao emitir opiniões sobre o quanto o mundo adoeceu; vemos estudos e análises de importantes filósofos e acadêmicos que afirmam que a sociedade já é considerada a sociedade do cansaço, marcada pelo excesso em exclamar a positividade e não viver uma positividade real e pela supervalorização da produtividade.
A exaustão é crônica, e cada era, tem suas patologias, mas o avanço delas tem elevado o número de diagnósticos como a síndrome do pânico, burnout e também a depressão.
Ainda que “cansados”, o mundo não adoeceu, pelo menos não por completo.
Para que tenhamos qualidade em nossa trajetória de vida pessoal, não devemos nos separar de quem somos como profissionais e cidadãos do mundo. Mas, é necessário que nossas maiores exigências e necessidades pessoais, íntimas, estejam sim de mãos dadas com as demandas do mundo, mas sem que uma escale e se instale em tempo integral sobre a outra.
O desequilíbrio social que nos impede quase sempre de termos um direito integral sobre nossas escolhas, também dita que o tempo é bem mais subjetivo do que objetivo, e que este por sua vez não pode ser “domado”.
Ainda permaneço crédula de que o mundo não adoeceu, embora constantemente esteja constipado.
Há quem lute pela justiça, pela melhora, pela preservação dos direitos humanos e da natureza.
A direção e a importância que é dada à cultura e aos sistemas, está incontestavelmente em defasagem. Em defasagem cruel, moral e jurídica.
Isto não é coisa de um mundo ou de outro, não é coisa somente de direita, somente de esquerda. É coisa do nosso mundo.
Isto fala um pouco de cada um de nós e o nós é muito, é absurdamente potente para o bem e para o mal.
O desafio é real, é gigantesco.
Estamos seguindo constipados, promovendo a desigualdade que todos dizem que não querem, até surgir uma pulseira de acesso exclusivo.
Até que não atrapalhe as “nossas festas” de final de ano, preocupam-se todos, mais, ou menos.
Não significa em tempo algum, que as consequências de nossos passos como cidadãos do mundo tenham na balança da justiça reflexo por igual.
Cada um sabe o peso que tem sobre o próprio corpo e sobre os seus atos. Mas, eis que podemos atuar com nossas vozes e podemos ir além com a nossa razão.
Como sociedade e como seres individuais, não somos textos criados em um vácuo. Somos o resultado de muitas lutas, conquistas e conflitos. É o que o processo Sócio-histórico da Constituição diz reconhecer, embora influenciado, por exemplo, pelo contexto social, eventos históricos, etc.
São muitas as demandas. Há sim, que arregaçarmos as mangas em direção a um futuro melhor. O tempo exclama!
Compartilho abaixo mais um novo texto de minha autoria que procura explanar que antes de tentarmos resolver os problemas do mundo, é importante olharmos para dentro de nós mesmos.
Não existe um problema que não nos seja um desafio.
Um real chamamento diante de um reclame, vindo de mim, de ti ou de qualquer outro.
Não existe nada que não constitua no tempo uma condição adaptável, seja indesejadamente ou trazendo de volta uma realidade harmoniosa.
A estabilidade não é uma linha reta, não possui propriedades incorruptíveis, inalteradas.
E mesmo numa reta, vivemos entre as curvas das decisões.
A estrada acaba por sua vez ora ou outra mais ou menos sinuosa.
Os desafios nos são incessantemente habitáveis, mesmo quando em acidentais proporções.
Incuráveis, não.
Aprendemos a conviver entre muitos tempos e neles todos, somos presença vívida ou consumida.
Leva-se tempo para entender o tempo.
Ainda mais tempo, quando temos todo o tempo do mundo.
Ficamos por vezes mudos em meio ao caos das possibilidades.
E neste caos, por mais tempo que haja, escasso também ele fica.
Em relação com o outro, com tantos outros, contigo, comigo, o tempo não é absoluto e independente.
Ele venta, mas acontece de dentro para fora.
De dentro da gente.
Não há na vida uma razão que não seja também sentimento.
E nem há como descolar totalmente uma da outra.
Mesmo que se queira, se tente.
Mente para si quem cala o que sente.
Mente e desmente que não há na mente razão emocionada.
Uma atitude que se abrande, incline, fortaleça ou resvale, tem em sua natureza, o que a ciência apresenta em genética.
Entre sinônimos e antônimos a vida se refaz.
E por isso mesmo, põe-se desfeita de tempo em tempo.
Sempre há tempo para algo mais.
Há sempre mais o que ser feito mesmo quando parece que não.
Somos nós todos como bambus que vergam e vergam e ainda não se quebram.
A inconsistência na ambiguidade dos passos, mesmo entre os laços, e principalmente por causa deles, nos impõe sempre mais.
Mesmo quando o menos também importe muito.
A vida é reciprocidade.
A vida é assimetria.
Na esperada conexão, habita a vulnerabilidade pela busca.
Viver é uma eterna busca por significado.
O sentido por vezes, é não ter sentido, e ainda coexistir com ele.
Encerramos capítulos, enquanto o outro assina apenas o rodapé.
As ausências nos são espelhos de quem somos apenas entre nós, a sós.
Todo mundo no vazio, enxerga mais do seu próprio mundo.
Ainda assim, alargamo-nos na presença potente do outro, da criação imperfeita entre essa adição de um com o outro.
Somos sempre mais.
E ainda não somos o suficiente.
Nascem daí, desta minúscula confusão das partes, as maiúsculas vogais que muito nos importam.
Entre tantos idiomas, para alguns importam um pouco menos, um pouco mais.
Pelejamos na competição.
Não damos foco ao que já não edifica.
A construção se pauta mais no que preenche, do que no que se esvazia.
Mas sempre vem o outro dia, e já é preciso transbordar.
O caminho jaz.
E renasce mesmo já nascido.
Temos o que tanto nos importa na força do querer.
Nas interrogações que nos atravessam, nas exclamações que nos apresentam, mesmo que ainda não nos definam.
Escrevemos coisas bonitas quando nossa alma despe-se das vestimentas torturosas do talvez.
Mesmo que ainda nele haja a possibilidade do não, a esperança logo se impõe e nos outorga também tantos novos sins.
O presente sempre estará à direita ou à esquerda do amanhã ou do passado.
O caminho entre os tempos nos é sabedoria inevitável.
Por Amanda da Silveira Lopes
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