Enquanto o calendário anuncia férias escolares, encontros familiares e celebrações de fim de ano, muitas mães vivem um período que passa longe do descanso. Para a maternidade atípica, esse intervalo — tão aguardado por alguns — costuma trazer um acúmulo silencioso de desafios.
A quebra da rotina, tão celebrada socialmente, pode ser profundamente desorganizadora para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. Horários diferentes, ambientes cheios, barulho excessivo, comidas novas, cheiros intensos, pessoas desconhecidas, fotos forçadas. Para quem sai de casa, cada convite envolve planejamento, antecipação de crises, estratégias de contenção e, muitas vezes, julgamentos velados. Para quem decide ficar, o preço é outro: o isolamento, a sensação de se alienar do mundo para preservar o mínimo de previsibilidade e sanidade dentro de casa.
Não se trata de uma, duas ou três famílias. São milhares. Mães que atravessam esse período há anos e outras que estão apenas começando a jornada. Todas carregando o peso de um cotidiano que raramente encontra espaço nas narrativas festivas de fim de ano.
O que muitos não veem é que, enquanto o mundo desacelera ou comemora, essas mulheres seguem em estado de alerta constante. Não há férias da sobrecarga emocional, não há pausa real do cuidado, não há descanso pleno quando o ambiente precisa ser continuamente mediado para que a criança se sinta segura.
Ao olhar para trás, é possível que o ano não tenha sido fácil — e, para muitas, não foi mesmo. Mas é justamente nesse momento de virada que a maternidade atípica nos ensina outra forma de medir conquistas. Aqui, vitórias não costumam vir em grandes marcos sociais. Elas aparecem nos detalhes quase invisíveis para quem está de fora.
Um alimento novo aceito depois de meses de tentativas. A retirada da fralda. Uma palavra dita. Um olhar sustentado. Uma crise a menos. Uma atitude diferente. Pequenos avanços que mudam tudo dentro de uma casa — mesmo que só quem vive ali consiga compreender o tamanho dessa conquista.
Que o novo ano seja também um convite a reconhecer essas vitórias silenciosas. A validar trajetórias que não seguem o roteiro esperado. E, sobretudo, a lembrar que, mesmo quando ninguém aplaude, cada passo dado nessa caminhada merece ser celebrado.
Ainda que apenas por você. Feliz 2026.


