Foi com o sotaque americanizado que a designer da Nike, Rachel Denti, brasileira que mora nos Estados Unidos apresentou a cor da camisa da nossa Seleção: “canary, que é o nosso amarelo clássico”, disse ela crente que estava abafando. Por aí já dava pra sentir que a “sessão enfeita-pavão” só estava no início e vinha muito mais pela frente. Dito e feito! Logo em seguida a estilista soltou o argumento de que “.. é Brasa, não é Brasil, … é Brasil, mas também é Brasa quando está jogando, né? Pra gente é muito fácil de entender, você olha e você sabe, vai Brasa e você sabe o que isso significa!”. Aí, eu pensei: “estou embasbacado, pois, foi pior do que eu imaginava!”. A palavra “Brasa” – sabe-se lá de onde e como ela enfiou isso no uniforme – ficou estampado no meião e na camisa. Claro, sem perder a oportunidade de “desfilar” todo seu conhecimento estilístico de argumentação, a designer também fez menção à capoeira com duas listras no short da Seleção. Ora, …, a capoeira! Como poderia faltar a capoeira?
Aí eu comecei a me perguntar: quando foi que eu ouvi, alguma vez, alguém gritar em qualquer disputa, tanto no feminino quanto no masculino, nas modalidades de base, juvenis ou adultas, da Seleção Brasileira de futebol, de basquete, de vôlei, de natação, de atletismo, de cuspe à distância ou seja lá a modalidade que for, a expressão “vai Brasa”? A resposta é a mesma que a sua: nunca!
Além disso, “canary”, com um sotaque bem carregado – para nós da “terra de além-mar”, é “os colarinhos”! Trata-se de, em bom português, amarelo-canário e, “Brasa”, só se for gíria do Roberto Carlos nos tempos da Jovem Guarda ou depois, pra quem é chegado, de fumar um certo “cachimbo da paz”!
E, a capoeira? Homenagem à capoeira no uniforme da Seleção com uma argumentação tremendamente criativa, temos que admitir, feita sem cerimônia! Olha, quando chegou nesse ponto do vídeo eu cheguei à conclusão de que o chamamento do Brasil de “Brasa”, comparando com o estilo da apresentadora em que se apresentou no vídeo com as duas possibilidades ditas acima da possível origem desse salamaleque todo, eu me convenci que a fonte dessa ideia não vinha da gíria do Roberto Carlos de sua época de Jovem Guarda! Então, imagine você!
Pra dizer bem à verdade, os tons das cores, particularmente, não agradam, o corte não parece cair bem em um atleta, e a argumentação não poderia ser pior em um contexto em que a Seleção Brasileira precisava de algo muito melhor. A Seleção está em baixa, e ponha baixa nisso! A política está em baixa, as ideologias estão em baixa e essa apresentação só veio mostrar o mais das mesmas coisas, ideias e perfis que precisam ser substituídos por outras que realmente fazem diferença na sociedade, que tenham conteúdo! Há quem diga que a repetição de uma “camisa retrô” seria milhões de vezes mais interessante do que aquilo que foi apresentado.
Mas, tudo isso tem uma razão.
Em um país que aceita tudo, ou, pelo menos, enfia-se tudo goela abaixo do povo, a Nike apostou em algo contemporâneo e que lançasse mais do que uma moda, porém, um estilo de visão que representasse o perfil do torcedor brasileiro. Apostou errado! O uniforme é feio, sem qualquer novidade interessante, a não ser a aposta em uma ideologização de uma coisa que, apesar de estar muito em baixa no momento, ainda é emblemática ao povo brasileiro. O resultado foi de reprovação a tudo que foi mostrado e a razão é simples: faltou muito o bom gosto e sobrou pra chuchu a “cultura woke” – coisa que a Nike disse ter se afastado há tempos (Brasil Paralelo, 14 ago 2024).
Pra tudo isso, há uma esperança! Isto porque não vi ninguém que defendesse, nem o uniforme, nem a estilista, muito menos as ideias absolutamente desconexas com o que ainda é – apesar de estar muitíssimo em baixa – a Seleção Brasileira para o povo brasileiro. E, frise-se que se para a Copa a Seleção não entusiasma nem um pouco, a maioria esmagadora dos torcedores esperavam, pelo menos, um uniforme que valesse à pena admirar. Não vale! E, se nem admirar está valendo à pena, muito menos pagar a pequena fortuna por uma camisa da Seleção.
Se a Nike deu um show no tênis do Michael Jordan, mostrado no filme “Air: a história por trás do logo”, no caso do uniforme da Seleção Brasileira, o marketing escolhido pela empresa não poderia ter sido pior.
A Nike conseguiu ir do céu com Jordan, mas, ao inferno, justamente com a nossa Seleção. O torcedor brasileiro não precisava disso!
Deuzolivre!
Marcos Túlio, Advogado e Professor de Direito.


