Caçadores do Possível XXX – “O Primeiro Amor”, por Gianmarco Bisaglia

Como fui feliz naquele fevereiro,

pois tudo para mim era primeiro…

primeira rosa, primeira esperança,

primeiro carnaval, primeiro amor, criança…

(“Vila Esperança” – Adoniran Barbosa)

 

Ela se chamava Kátia, tinha dez anos e eu, onze. Foi o meu primeiro amor, ou pelo menos aquilo que eu chamei de amor. Foi algo forte – sentimento platônico completamente idealizado (obviamente eu nem sabia o que significavam estas palavras na época…). Tínhamos a mesma professora de piano (todo mundo estudava piano na época!) e encontrávamos em festinhas, audições e saraus – apesar da pouca idade ela tinha técnica e força para encarar difíceis peças de Chopin ou Ernesto Nazareth, nada a ver com o rostinho pálido lindo e compenetradíssimo quando estava ao teclado.

Também brincávamos em frente à casa dela quase todos os dias – ela não saia à rua, mas passava as tardes ao piano em intermináveis exercícios de Czerny ou Burgmüller – eu olhava a menina apaixonado, despertando o poeta latente, o sonhador que viria a ser. Era a criança-adolescente procurando seu lugar no mundo, eu que vinha de uma disfuncional família de classe média com valores conservadores; me achava o máximo por ter devorado toda coleção de Júlio Verne e Monteiro Lobato (sem contar dezenas de romances policiais), e já arriscava ler Jorge Amado e Veríssimo…

Nem me lembro quanto tempo durou a paixão – sei que morreu com um choque de realidade, quando a mãe dela veio me dar bronca, que ela era muito criança para namorar e que eu era um moleque, para eu cair fora, etc, etc… (até hoje não sei quem foi o filho da puta fofoqueiro que contou para a mãe dela a minha paixão secreta…).

O tempo não suprimiu o desejo e paixão, que eu sentiria muitas vezes mais durante a vida – a paixão que faz a gente sonhar acordado, enxergar beleza em pequenas coisas bestas e nos dá coragem para mergulhos profundos em mares escuros, sem saber se teremos fôlego para retornar à superfície.

Aquele episódio de amor singelo, puro, inocente, talvez tenha sido um rito de passagem da criança que saia de seu corpo protetor e se lançava na vida, no mundo, ao lidar com seus dragões internos e externos… nos folguedos de pula-carniça, taco, pipa, bafo, nas festinhas de garagem, ampliávamos nosso universo relacional, e sonhávamos com o futuro, sem saber que o futuro já estava sendo construído ali, no dia a dia.

As emoções sentidas explodiam em criatividade e aumentavam a percepção – começavam a fazer sentido os poemas de Vinícius ou canções de Chico Buarque e Roberto Carlos – menos divulgados que os enlatados de pop americano bastante presentes em todas populares novelas globais – centralização midiática e alienação cultural, uma das marcas da forte repressão do governo Médici…

Da Kátia, nunca mais soube. Mudou de professora, eu fui para o conservatório e pouco tempo depois, mudei do bairro – sobrou a prazerosa memória sempre renovada quando ouço valsas de Chopin! Com o tempo, aprendi que aquela paixão não era pela Kátia, mas pela vida que se descortinava sedutora – eu sentia desejo e possibilidade de amar, interagir – eu menino, que nunca havia namorado na vida, e ainda levaria um bom tempo para dar meu primeiro beijo! Foi uma paixão-símbolo de desejos não realizados, mas profundamente inspiradores para modelar o homem e o menino maduro que sou hoje.

 

 

Gianmarco Bisaglia

Saber mais →

Deixe um comentário