Bragança Paulista perde indústria para Extrema?

Em Bragança Paulista, tornou-se comum ouvir frases como “Bragança perde indústrias para Extrema” ou “viramos cidade-dormitório de Extrema”. Esse discurso foi amplamente reproduzido nas últimas eleições. No entanto, essa é narrativa bastante simplista.

Mas, afinal, Extrema é mesmo mais eficiente que Bragança Paulista? O que faz com que tantas indústrias escolham cruzar a divisa

Dois fatores se destacam: logística privilegiada e incentivos fiscais.

Extrema, em Minas Gerais, conta com um pacote tributário competitivo, fruto da chamada “guerra fiscal” entre os estados. Enquanto em São Paulo o ICMS pode chegar a 18% ou 25%, em Extrema empresas se beneficiam de alíquotas reduzidas entre 1,3% e 6% em vendas interestaduais, graças a políticas de incentivo do governo mineiro. No ISS, embora a alíquota máxima seja de 5% em ambas as cidades, Extrema costuma oferecer reduções para 2% ou até 1,5% para novas indústrias. Já o IPTU também tende a ser mais favorável no município mineiro, com isenções de até 10 anos, enquanto em Bragança as negociações são mais criteriosas e sujeitas a exigências específicas.

Além dos incentivos, a logística de Extrema é interessante, a cidade está às margens da Rodovia Fernão Dias, uma das principais rotas de escoamento de produção do Sudeste, a apenas 100 km da capital paulista. Extrema ainda conta com zonas industriais planejadas, integradas a rotas de transporte e centros de distribuição. Bragança, por sua vez, enfrenta limitações urbanas e ambientais, além de infraestrutura menos adaptada para grandes operações logísticas.

Bragança ainda lida com entraves burocráticos, lentidão nos processos e maior rigidez na liberação de empreendimentos. Além disso, os terrenos industriais em Extrema são mais acessíveis. O município oferece áreas com infraestrutura básica pronta e preços mais competitivos, enquanto em Bragança há escassez de terrenos adequados, o que eleva o custo e dificulta a implantação imediata de novas fábricas.

Outro fator menos visível, mas igualmente relevante, é o custo operacional. Em Extrema, os custos com mão de obra, energia, serviços e até o custo de vida são, em média, mais baixos. Isso impacta diretamente nas despesas fixas das empresas e, portanto, na decisão de onde se instalar.

Contudo, esse cenário tende a mudar com a implementação da Reforma Tributária e do novo IVA. Hoje, grande parte da decisão empresarial se baseia em incentivos estaduais de ICMS. Com o novo modelo tributário, que prevê a cobrança no destino, onde o produto é consumido, e não na origem, onde é produzido, as vantagens fiscais regionais devem desaparecer gradualmente. Isso promete frear a migração artificial de empresas em busca apenas de benefícios fiscais e tornar outros fatores, como infraestrutura, logística e qualidade de vida, determinantes nas escolhas empresariais. Municípios como Bragança, que historicamente ficaram fora da guerra fiscal, poderão se beneficiar dessa nova lógica.

Por isso, é fundamental que o debate público avance. Não há espaço para políticos a repetirem que Bragança perde indústrias para Extrema. Esse tipo de argumento ignora a complexidade do setor e não contribui para a formulação de políticas públicas. Nesse sentido, não há uma concorrência direta entre Bragança Paulista e Extrema pela atração de indústrias, mas sim fatores específicos que tornam Extrema atrativa. Não há uma relação causal entre os dois contextos, e talvez esse seja o ponto principal: entender que a dinâmica industrial é influenciada por múltiplas variáveis, e não por uma disputa simplista entre municípios vizinhos.

José Victor

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