
A febre do bebê Reborn, a paternidade de Pets e a língua ferina das redes sociais
Por Mário Doro
Vivemos tempos em que afeto é julgado, e escolhas emocionais são alvos de escárnio. A sociedade se arroga o direito de definir o que é “normal”, enquanto ignora as dores silenciosas que levam uma pessoa a adotar um bebê de silicone ou a tratar um cão como filho. A febre dos bebês Reborn e a crescente paternidade de pets são sintomas — não de desequilíbrio — mas de carência, de abandono afetivo, de um mundo que cada vez mais se afasta da empatia.
As redes sociais, com suas línguas afiadas e julgamentos instantâneos, amplificaram a crueldade. Não se pensa nas histórias por trás das escolhas. Não se pergunta: “Será que essa mulher nunca teve a chance de ser mãe? Será que esse homem perdeu a família e encontrou num cão o último elo com o amor?” O dedo aponta antes de qualquer reflexão. E o julgamento vem carregado de sarcasmo, preconceito e ignorância.
Vivemos em uma sociedade que se especializou em criticar. Mas se tornou incapaz de acolher. A empatia virou exceção. O respeito, artigo de luxo. A solidão, por outro lado, se tornou epidemia — camuflada por selfies sorridentes e corações digitais.
Quem sou eu para julgar? Quem é você para julgar? Quem somos nós para decidir o que é válido na tentativa desesperada do outro de se sentir vivo, amado, visto?
A verdade é que estamos nos fechando em bolhas afetivas, criando pequenos mundos onde ainda podemos respirar sem o veneno da crítica alheia. A sociedade está doente. E precisa, urgentemente, de uma reforma interior. De menos vozes arrogantes e mais escuta generosa. De menos zombaria e mais compreensão.
As redes sociais deram voz aos idiotas — e, pior, deram-lhes audiência. Mas também podem ser espaço de transformação, se escolhermos compartilhar mais humanidade e menos julgamento.
A pergunta que fica é: até quando vamos suportar o peso de tanta intolerância travestida de opinião?


