ACONTECEU ONTEM À NOITE

campos, seguia por caminhos diferentes destes a que estou mortalmente acostumado — transitório, passageiro.

​Eram paisagens surreais, um filme tridimensional onde se via o horizonte de um jeito incomum, algo próximo daquilo que conhecemos como marca-d’água. E o caminho era para a frente, sempre para a frente. Não havia contornos nem retornos; a força gravitacional dentro de mim era minha bússola.

​Do nada, a rotina foi quebrada: o bizarro manifestou-se na forma de um ser sangrento, feroz, grande e encorpado, parecendo um galo com uma massa de 3 metros, disforme, contornando uma presa — uma mulher nua. E as bicadas eram tantas que o sangue vinha acompanhado por pedaços de carne do corpo da jovem; pobre jovem. Mas, para minha surpresa, ela se contorcia de prazer, com aquele “sorriso de Monalisa”, hipnotizada; contudo, era nítido que estava em transe, psiquicamente tomada. Bateu-me o desespero para acordá-la daquele desastre, tirá-la daquela armadilha amaldiçoada. Mas os meus pedidos foram todos em vão.
​Quando me aproximei com a fé que eu nem sabia ter dentro de mim, parti para cima da besta sanguinária. Ela, num piscar de olhos, foi para as alturas com sua presa, fora do meu alcance. Senti que “a coisa” emanava um quê de desdém, a mesma sensação que passam os agentes das trevas aos seus oponentes. E não sei dizer como, mas providencialmente algo se materializou: uma arma acoplada a uma corrente, elástica e forte, muito forte. Algo parecido com uma “maça” da Idade Média. Fiz o rodopio da nova arma, nova aliada, e a lancei às alturas, em direção ao contraditório. A jogada foi certeira. A peça enlaçou-o e o trouxe de volta ao solo, diante de mim. Sem pestanejar, soltei a moça, que acordou do transe; não sei mais dizer para onde ela foi, para quais mãos nem para qual novo abrigo.

​Diante do instante atordoante do monstrengo, quando estava bem perto, ao ponto de tocá-lo, percebi em meu íntimo que aquela coisa medonha era um irmão desencarnado lançando-se à mercê de sua loucura obsessiva. Sem tempo a perder, enfiei minha mão sobre o peito dele, observei cores disformes e inconstantes se movimentando, trocando de lugar, trocando de tons, e minha mão foi se aprofundando cada vez mais, sem dimensão, enquanto eu ia mentalmente exclamando, convicto, o nome de Jesus. Nesse momento, ia se emoldurando a forma de um coração — um coração humano. E a palavra mental, Jesus, vibrando em minha mão, foi marcando em brasa aquele coração.

​Não mais havia fera, somente um homem, acanhado, diante de mim. E a nova forma, agora totalmente humana, desmaterializada de toda a insana fantasia, acordou para sua nova realidade e seguiu um caminho que não mais me pertencia saber. A mão que me guiava era invisível, discreta e presente como a voz do vento em seu cântico celestial.
​E despertei com os pássaros me chamando para minha outra realidade: uma nova manhã, outra página da vida a escrever.

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(Nilton Bustamante, por desdobramento de alma)

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Nilton Bustamante

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