Autor: Nilton Bustamante
E veio a pergunta:
— O desamor produz mais poesia do que o amor, por quê?
O poeta pensou e disse, sem demora:
— O poeta, ao vislumbrar o amor — essa viagem desconhecida com tantas possibilidades de transpor intensamente as fronteiras da alma, da mente, do corpo e das salivas —, realmente se angustia quando se sente solo ao querer voar. Angustia-se tantas outras vezes ao querer saborear o doce e não ter com quem falar dessa aventura; ao possuir segredos e não ter com quem combinar o silêncio; ao ter os lábios sedentos e não encontrar outros como amphora lucis para lhe jorrar na alma… E ao saber que o ser amado está a uma linha das possibilidades e, mesmo assim, essa linha é sempre um abismo a separar… Por isso, o sofrimento e a necessidade da vasta escrita, da enorme produção de tantas e tantas lamentações que atravessam os tempos, precisam jorrar suas buscas.
O poeta, após breve suspiro, continuou:
— E quando o poeta voa duplo, corpos e almas se confundem em sorrisos viajando por dentro das flores, entre cachoeiras geladas em chamas que não se apagam; quando o poeta é arara voando com seu par em companhia, com a cumplicidade do simples, são tantas e tantas coisas a fazer, visitar, conhecer e saborear dos universos dos corpos e dos olhares; são cílios fazendo cócegas nas almas apaixonadas em tolas brincadeiras, da incompreensível maneira de achar graça em tudo e em todos, que simplesmente o tempo deixa de existir. A ocupação com a felicidade é tanta que o poeta não quer parar para nada, nem mesmo para escrever.
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