Cutucando o vespeiro… DESAPARECIMENTOS E MORTES DE OPOSITORES

Cutucando o vespeiro…

DESAPARECIMENTOS E MORTES DE OPOSITORES

 

Aqui começa uma parte da história em que até o dicionário parece ter sido convocado para colaborar com a mentira.

A pessoa era presa. Depois, desaparecia. E, quando alguém perguntava onde estava, aparecia uma explicação oficial — geralmente tão convincente quanto nota de três reais.

Morreu?

Fugiu?

Foi para o exterior?

Está desaparecido?

Dependendo da conveniência, podia ser qualquer coisa. Só não podia ser aquilo que realmente havia acontecido.

Muitos foram presos pelos órgãos de repressão, torturados e mortos. Alguns simplesmente desapareceram. E o desaparecimento, naquele tempo, tinha uma curiosa característica: o desaparecido deixava de existir oficialmente, mas continuava existindo na angústia da família.

E aqui aparece uma pergunta que incomoda mais do que deveria:

Como uma sociedade consegue conviver com alguém desaparecido sem exigir saber onde ele está?

Talvez porque o medo seja um excelente professor de silêncio.

E o silêncio, quando vira hábito, começa a parecer normal.

O caso de Rubens Paiva é um dos exemplos mais emblemáticos.

Deputado federal cassado pelo regime militar, Rubens Paiva foi preso em janeiro de 1971. Depois disso, sua família nunca mais o viu.

Durante anos, versões oficiais tentaram explicar seu destino. A verdade, porém, demorou décadas para aparecer com a força necessária para desmontar aquelas histórias.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores perversidades:

não bastava matar. Era preciso fabricar uma versão para a morte.

Porque um corpo desaparecido pode ser enterrado.

Mas uma mentira repetida durante anos tenta enterrar também a memória.

E memória, meus amigos, é um negócio teimoso.

Ela não respeita decreto, censura, farda, porão nem discurso oficial.

Ela volta.

Volta pelas fotografias.

Volta pelas mães que esperaram.

Volta pelos filhos que cresceram sem o pai.

Volta pelos documentos escondidos.

Volta pelos nomes.

E volta, principalmente, pelas perguntas.

Quem mandou?

Quem executou?

Quem sabia?

Quem acobertou?

E, talvez a pergunta mais incômoda de todas:

quem preferiu não saber?

Porque uma ditadura não se sustenta apenas com quem manda e com quem tortura.

Ela também encontra espaço quando o restante da sociedade aprende a olhar para o outro lado.

“Não me envolvo.”

“Alguma coisa ele deve ter feito.”

“Se foi preso, não era boa coisa.”

“Melhor não falar disso.”

Pronto.

Está criada a receita perfeita para que a barbaridade continue trabalhando tranquilamente.

E aqui está a minha pequena provocação:

quando alguém desaparece e a sociedade aceita uma mentira conveniente, o desaparecimento deixa de ser apenas físico. Ele começa a desaparecer também da consciência coletiva.

É disso que precisamos tomar cuidado

Porque esquecer não apaga o crime.

Só facilita sua repetição.

E talvez seja por isso que algumas histórias insistam em voltar.

Não para cobrar vingança.

Mas para impedir que a próxima geração aceite novamente a mesma velha mentira com uma embalagem nova.

A História não é uma fotografia antiga guardada numa gaveta.

É um espelho.

E alguns espelhos, quando a gente olha direito, não mostram apenas os mortos.

Mostram também os vivos.

 

Professor Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

Saber mais →

Deixe um comentário