VIRTUDE SUBLIME

VIRTUDE SUBLIME

A religião, seja ela qual for, pode ser uma virtude sublime. Para uns, é abrigo; para outros, é esperança. Para muitos, é a mão invisível que nos sustenta quando a vida parece retirar debaixo dos nossos pés o último pedaço de chão.

Ter fé é acreditar naquilo que nem sempre conseguimos explicar. É confiar quando as certezas desaparecem. É continuar caminhando mesmo quando não sabemos exatamente para onde a estrada nos levará.

Todos nós, em algum momento da vida, precisamos de alguma coisa a que nos agarrar. Há dias em que as palavras faltam, as forças diminuem e as respostas simplesmente não aparecem. É justamente nessas horas que muitos de nós levantamos os olhos para o alto e fazemos aquilo que talvez seja uma das atitudes mais antigas do ser humano: rezamos.

Pedimos proteção. Pedimos força. Pedimos saúde. Pedimos que alguém querido não sofra. Pedimos até aquilo que sabemos ser impossível.

E Deus, com uma paciência que provavelmente nenhum de nós teria, continua ouvindo.

A fé não é um seguro contra as dores da existência. Quem tem fé também chora, perde, fracassa, adoece, sente medo e, algumas vezes, pergunta a Deus por que determinadas coisas acontecem.

A diferença talvez esteja no que fazemos depois da pergunta.

A fé pode não retirar a pedra do caminho, mas pode nos ensinar a não desistir diante dela. Pode não apagar a tristeza, mas pode impedir que ela se transforme em desespero. Pode não mudar o passado, mas pode nos dar coragem para enfrentar o amanhã.

E isso já é muita coisa.

Quantas vezes encontramos alguém que diz:

— Não tenho religião. Não acredito em nada.

Não devemos julgá-lo. Cada pessoa carrega uma história que desconhecemos. Há quem tenha encontrado Deus cedo; há quem O tenha procurado durante toda a vida. Há quem tenha perdido a fé depois de uma grande dor. E há quem simplesmente escolha caminhar por outra estrada.

A verdadeira fé, aliás, não deveria nos ensinar a olhar o outro de cima para baixo.

Deveria nos ensinar a estender a mão.

Porque pouco adianta frequentarmos templos, conhecermos orações de cor, carregarmos símbolos religiosos no peito e pronunciarmos o nome de Deus a todo instante, se não somos capazes de praticar aquilo que Ele espera de nós.

Religião sem amor vira costume.

Fé sem caridade vira discurso.

Oração sem atitude pode ser apenas um pedido feito ao céu enquanto permanecemos de braços cruzados na terra.

Talvez por isso a maior prova de nossa fé não esteja dentro de uma igreja, de um templo ou de qualquer lugar sagrado. Ela esteja lá fora.

Está na maneira como tratamos o pobre.

Na paciência que temos com o idoso.

Na mão que estendemos ao caído.

No perdão que conseguimos oferecer.

Na honestidade quando ninguém está olhando.

No respeito por quem pensa diferente.

E, principalmente, na capacidade de amar sem perguntar primeiro se o outro merece.

Tenhamos, portanto, uma religião, se assim escolhermos. Tenhamos uma fé, se ela fizer morada em nosso coração. Mas que ela seja muito mais do que um rótulo.

Que seja uma bússola.

Que nos ajude a distinguir o certo do errado, a resistir às tentações, a levantar depois das quedas e a continuar procurando o caminho do bem.

Não precisamos usar nossa religião para provar que somos melhores que os outros.

Talvez devêssemos usá-la justamente para lembrar que ainda temos muito a melhorar.

No fim das contas, pouco importa se a nossa fé se chama catolicismo, protestantismo, espiritismo ou qualquer outra denominação. O que realmente importa é aquilo que ela produz dentro de nós.

Se nos torna mais humildes, mais solidários, mais honestos, mais tolerantes e mais humanos, então alguma coisa muito bonita está acontecendo.

Porque a religião que nos aproxima de Deus, mas nos afasta do próximo, precisa ser revista.

E a fé que nos faz amar somente aqueles que pensam como nós ainda não compreendeu completamente a palavra amor.

Talvez a verdadeira religião não seja aquela que ostentamos no peito, mas aquela que conseguimos praticar nas pequenas coisas.

Talvez Deus não esteja tão interessado em ouvir quantas vezes pronunciamos Seu nome, mas em descobrir quantas vezes pronunciamos o nome de alguém que precisava de nossa ajuda.

No final, a fé não deveria ser uma parede que nos separa dos outros.

Deveria ser uma ponte.

Uma ponte entre nós e Deus, mas também entre nós e aqueles que caminham ao nosso lado.

Porque, no fim das contas, talvez esta seja a mais sublime das virtudes da fé:

Aproximar o homem de Deus sem jamais permitir que ele se afaste do homem.

Professor Pedro Troche González

Pedro Troche González

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