Não poucas vezes ouvi a história do Bastião Orelhudo, que percorre desde sempre o imaginário dos bragantinos. Quem nunca a ouviu? Trata-se mesmo de uma página de horror na história de nossa cidade. O serial killer foi responsável por estupros e assassinatos cruéis, incluindo atos de canibalismo contra crianças inocentes.
Mas a comoção com que ela contava me fazia estremecer. Ele comeu o coração da menina! Logo eu, que nem imaginava ter meu coração comido tantas vezes mais tarde por homens, em sentido figurado, mas não menos dolorido. Eu ouvia essa sentença e conseguia imaginar, mente fértil desde criança, o homem abrindo o peito pueril e arrancando o órgão, as mãos ensanguentadas; conseguia até mesmo sentir o cheiro do sangue e pensava se todo sangue tinha o mesmo cheiro. O meu teria? Meu coração seria do mesmo tamanho do daquela menina? Não tinha muita noção… Mas temia o horror.
Como é que ela sabia que ele comera o coração? E por que o coração? Mais tarde, e só mais tarde, pensei mais a esse respeito, se havia alguma motivação ou simbologia específica para essa escolha. Sabor? Só de pensar nessa remota possibilidade e por considerá-la menos poética que as demais que formulei, sentia asco. Comer o órgão onde supostamente nascem as emoções, ao menos em minha cabecinha infantil, era assim. Hoje sei que são criadas no cérebro. Será mesmo?
Meu cérebro ainda lateja relembrando as histórias de Bastião… Ou seriam as histórias de Bete? Meu coração, macerado pelo medo, ainda pulsa descompassado quando penso em como conheci essa história e no fato de ela ser real. “Baseado em fatos reais”, basta aparecer essa frase na tela para eu quase me arrepender de ter começado a assistir a alguns filmes, mas só os de terror ou absurdamente violentos. Acho mesmo que algum streaming devia lançar uma série a respeito do serial killer da Terra da Linguiça – audiência garantida, afinal, o horror fascina desde sempre.
Será que a justificativa era acalmar? Sempre fui uma criança meio agitada… Causar medo? Ameaçar? Não gosto muito dessa última palavra. Fosse o que fosse, não funcionava muito, não, reflito hoje.
Hoje também reflito sobre muitas outras questões das quais sequer nem fazia ideia naquela época. Uma delas, a mais importante, é a própria história de vida de minha “babá”. Babá é nome de rico. Minha mãe dizia que ela era nossa segunda mãe. E a vida de nossa segunda mãe não era fácil. Vinda de algum lugar do norte ou nordeste do país, trabalhara desde muito nova em casas de família. Formou também a sua própria. O marido bebia muito; cada um se arruma de algum jeito para suportar a dureza da vida. Um dos filhos se envolveu com drogas, acabou preso. Mais uma dor para a conta daquela mulher temente a Deus. Quando não estava no serviço, você a encontrava na igreja, sempre orando, sempre agradecendo pelo que não tinha. No fundo, eu a invejava por isso.
Um dia, cheguei a pensar se não tinha sido eu o motivo de o filho dela se perder. Ela cuidava de mim e não havia sobrado tempo para cuidar de seu próprio filho? A vida adulta nos confronta com as injustiças todas, as que sofremos e as que causamos em nossos semelhantes. Nunca saímos ilesos depois de um breve exame de consciência.
Mas esse foi um pensamento infantil que me atormentou por anos a fio. Talvez não tão infantil assim… não tão inverossímil, palavra que só fui aprender mais tarde.
Com ela, aprendi CORAÇÃO. Aprendi também a agradecer, até mesmo pelo que também me faltava. Nenhum de nós, em nossa finita humanidade pode ter tudo…
E hoje, mulher feita, se é que essa expressão faz algum sentido, talvez compreenda o porquê de sua escolha tão peculiar para contação de histórias. Talvez ela contasse aquelas histórias, simplesmente porque a dela era ainda mais triste.
***
Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca e no Facebook: Jornal Em Dia
Receba as notícias no seu WhatsApp pelo link: https://chat.whatsapp.com/Bo0bb5NSBxg5XOpC5ypb9D


