DEPOIS DAS EUFORIAS

Parecia ser mais um dia…
Parecia ser mais um daqueles dias normais, onde os ponteiros dos relógios já sabem de cor e salteado os mesmos caminhos, os mesmos voos dos passarinhos pelo céu que está azul — um azul de paz e para outros voos mais.

Parecia, mas algo acontecia…

Eu descia por uma inclinação do terreno, descia pelos caminhos da Universidade. Tudo muito grande, mas, sem saber bem o porquê, logo sentia um peso, algo oprimindo, algo me cansando os passos. Parecia que não acontecia mais nenhum tipo de voo. E, cada vez que eu seguia, mais eu sentia essa dificuldade de andar, de respirar… O chão ficava difícil, tortuoso, acidentado e, quando olhei para baixo para ver o que se passava abaixo da linha do Equador dos meus olhos, eu me espantei fortemente. Um enorme susto provocou-me uma descarga radical de adrenalina: andava sobre corpos sem vida. Por onde minha visão alcançava, eram só corpos amontoados uns sobre os outros, formando um pseudosolo; e outros tantos submersos em um pântano de virar o estômago, sinistro, triste, frio, pior que qualquer cemitério, algo indecente, algo contra qualquer dignidade… E eu queria entender aquilo tudo.

Equilibrava-me, pisava sobre as cabeças para não me afundar, queria sair dali a qualquer momento, a qualquer instante, logo que possível… Olhei para trás, dei um grito para meu filho mais velho vir e ver o que eu tinha encontrado, saber o que se passava, tomar conhecimento, saber da existência desses horrores. Ele precisava saber, precisava… Ele veio e, também aturdido, passou a me seguir.

Parecia o filme “O Senhor dos Anéis”, quando o jovem protagonista passa por um pântano, um lodaçal, e vê corpos submersos que não mais contavam história alguma, apenas abraçavam a Eternidade com seus horrores e dramas… E, na minha ansiedade de sair dali, depois de um pequeno riacho, raso, no qual eu tentava limpar meus pés de possíveis asquerosidades, logo vi uma turma de jovens, alegres, em algazarras, dessas que ficam pelos bares perto das universidades pelo mundo afora, onde tudo é festa, tudo é alegria, tudo é risada por nada, por tudo…

De um lado, todos aqueles corpos de jovens e adultos − a maioria de rapazes −, inertes, tragados pela desgraça; e, de outro lado, aqueles jovens festejando a vida da maneira deles, aos gritos da música alta, fazendo fronteira de parte a parte. O problema não era a música alta, nem os risos descontrolados, nem a alegria de se reunir com pessoas amigas, nada que fosse próprio da juventude, mas sim o que se passava por debaixo das mesas, o que se seguia pelos bastidores daquele cenário aparentemente inofensivo.

Antes de eu querer fazer mais uma pergunta para mim mesmo, fazer qualquer pergunta para os céus, veio-me alguém da Espiritualidade e, com sua voz mental, penetrou-me o íntimo e esclareceu:

“Estes corpos são todos das vítimas dos vícios das drogas, drogas de todo tipo e ‘má sorte’, que agora estão unidos pela mesma desgraça voluntária. Estão no cemitério das desilusões, e cada horror que cada um desses passou está estampado na memória espiritual, juntando-se na mesma frequência fluídica perturbada e perturbadora. Os iguais se buscam. E esse ajuntamento, esse cemitério, é obra desses mesmos seres desencarnados que, tomados por esses vícios que estão em seus psiquismos, tentam vampirizar os resíduos fluídicos das drogas que ainda estão, de algum modo, nesses corpos que se desfazem… Buscam, esses espíritos, desesperadamente, sentir as mesmas sensações que os escravizaram ao extermínio de si mesmos. E esses jovens que você vê, ruidosos, nesses bares periféricos, onde margeiam as mesmas águas de onde vêm os ‘cantos das sereias’ — cantos para o fundo da morte —, são jovens que estão ligados moral e mentalmente nos mesmos interesses, e são os próximos da fila, os próximos que farão parte desse circo dos horrores; vão eufóricos para o fim de si mesmos e não percebem, ou não querem perceber…”

E continuou a mesma voz auxiliadora:

“A prece, muita prece em favor deles todos, é mais que necessária, é vital! A Espiritualidade está atenta e atuante, por isso convidamos os nossos irmãos que estão encarnados a virem em alma, em seus desdobramentos, em seus sonhos, para tomarem ciência desses acontecimentos, desses dramas nas outras dimensões, para que haja união entre Céu e Terra, entre a Espiritualidade Maior e os espíritos encarnados, para se afinarem na mesma sintonia do amor, unindo-se fluidicamente, em energias benditas, para fazer oposição a essas outras energias grosseiras dos horrores. Temos que libertar nossos irmãos sofredores desses transes dos vícios, tanto aqueles já desencarnados, quanto aqueles encarnados em suas festas desenfreadas que estão caindo no ‘canto da sereia’, para que possam, dessa maneira, ser revitalizados pelas ondas de preces de amor a favor deles, tomar ânimo para um melhor caminho, um outro campo mental longe disso tudo, desse sofrimento todo…”

E a mesma voz mental finalizou:

“A natureza da vida é evoluir! Continuemos com muito amor em Jesus Cristo, pedindo que o nosso Irmão Maior possa interceder por todos nós diante do Pai; é a nossa fé, é a nossa esperança, nossa prece, prece de amor…”

Eu despertei em seguida. O que parecia ser mais um dia, mais uma noite… quem sabe agora, um novo raio de luz.

Nilton Bustamante

Saber mais →

Deixe um comentário