
O altar não pode virar palanque
“E, tendo feito um azorrague de cordas, lançou todos fora do templo…” — Bíblia Sagrada
Existe uma degradação silenciosa acontecendo diante dos olhos da sociedade: templos religiosos estão sendo transformados em comitês políticos.
E isso não importa se ocorre em igrejas católicas, evangélicas, centros espirituais ou templos de matrizes africanas. Quando a fé passa a servir partidos, candidatos e projetos de poder, o espaço sagrado perde sua essência.
A religião deveria acolher consciências, não fabricar cabos eleitorais.
O problema não é o líder religioso possuir opinião política — isso faz parte da democracia. O problema começa quando ele utiliza o púlpito, a autoridade espiritual e a fragilidade emocional dos fiéis para induzir votos, manipular consciências e transformar devoção em submissão ideológica.
Cristo expulsou os mercadores do templo porque entendeu que o sagrado não pode ser usado como instrumento de exploração.
Hoje, em muitos lugares, não se vendem apenas moedas e promessas. Vendem-se narrativas políticas, idolatrias partidárias e discursos de poder disfarçados de “missão divina”.
É assustador observar líderes religiosos se comportando como operadores eleitorais enquanto milhões de brasileiros enfrentam desemprego, pobreza, depressão e abandono social.
A fé virou estratégia de influência.
O altar virou palco.
E o fiel virou massa de manobra.
Nenhum pastor, padre, pai de santo ou líder espiritual deveria constranger moralmente um cidadão a votar em alguém. O voto pertence à consciência individual, não à pressão coletiva criada pela autoridade religiosa.
O eleitor precisa reagir com maturidade e indignação.
Quem mistura religião com fanatismo político destrói duas coisas ao mesmo tempo:
enfraquece a democracia;
corrompe a espiritualidade.
Templo é lugar de reflexão, caridade, silêncio interior e crescimento humano — não de campanha eleitoral disfarçada de revelação divina.
Quando a política invade o altar, a fé deixa de libertar e passa a domesticar consciências.
Mário Doro


