(RE)ENCONTROS

Agoniza uma jovem em seu leito hospitalar e, em um virar de rosto, como se não quisesse ver a própria morte, dá seu último suspiro. Falece.

Vai-se o último suspiro, vem o silêncio.

Naquela ausência de vida, o silêncio avança, alcança quem já não quer nada mais. A agonia instala-se naquele lugar, naquele quarto de hospital; o silêncio insiste e permanece, não se disfarça.

Passa-se o dia, entra outro e mais outro… o tempo flui.

Finalmente, como não poderia deixar de ser, reúnem-se os amigos da jovem que partira sem dizer adeus, da jovem que se foi sem despedida, em um último suspirar dos pulmões que outrora foram repletos de vida. Sem jeito para iniciar qualquer tipo de assunto, numa distração qualquer a conversa começa de forma amena e logo toma o corpo da controvérsia. Das lembranças gentis e melancólicas surgem os questionamentos, alguns aborrecimentos, algumas opiniões entre dentes cerrados… A maioria também era de jovens, com mais perguntas que respostas.

Uma moça mais frenética fala, sem rodeios, a todos:
— Deveríamos tê-la avisado de sua condição, de sua doença, falado sobre o câncer. Pelo menos ela teria como lutar, do jeito dela; teria a chance de lutar! Mesmo quando o corpo está em desvantagem, a alma pode crescer e resistir…

Outro a interrompe:
— Não, foi melhor assim. Pelo menos ela não sofreu além do que já sentia! Por que deixá-la, naqueles dias, ainda mais com o peso da angústia de saber sobre a doença? De que valeria a pena? Em menos de um mês, da primeira dor ao falecimento, tudo foi tão rápido…

E assim continuaram os atritos de opiniões sobre o que deveria ter sido feito, dito ou não dito…

Quando todos, já cansados e sem chegar a lugar algum, resolveram, então, orar em favor da amiga que partiu…

Notei que as preces tornaram-se uma luz em expressão condensada, irradiando de coração a coração o melhor que se podia sentir: amorosidade em favor da amiga. E aquela energia tomou forma, o suficiente para ser colocada sobre mãos que desejavam doar. Nisso, todos olharam para mim e, num gesto sem pensar, sem ensaiar, sem sequer desejar antes, abri minhas mãos em concha, fazendo delas o receptáculo daquela energia, daquele “presente”, daquela “lembrança” de amor a ser entregue aos céus em favor da jovem que passou desta dimensão à pátria celestial.

Comecei a me elevar, sem asas; comecei a ir ao céu, sem medo, sem receio das alturas, cada vez mais e mais alto. E minhas mãos já estavam em posição de oferenda, à frente, acima da minha cabeça, sempre em sentido retilíneo, em um ângulo de 90 graus… Até que “bati no céu”. Sim, algo me interrompeu, mostrando-me que ali era o final da jornada.

Como pude “bater” em algo? Como poderia o céu ser tangível?

Foi quando, para minha enorme surpresa e alegria, percebi que eu estava em desdobramento, com a alma livre do jugo do corpo físico; vi que o céu, nada mais, nada menos, era a face, em um largo sorriso, da jovem que partira…

Ela aguardava, feliz, o presente de seus irmãos-amigos antes de continuar sua viagem.


Relato de Nilton Bustamante em “desdobramento” da alma.

Nilton Bustamante

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