Dizem que a nossa primeira vez a gente nunca esquece. No campo das possibilidades, poderia ter sido ruim ou bom, mas, no meu caso, a estreia no sarau “Sopa de Letrinhas” foi MARAVILHOSA!
O Relato
Em 2003, o poeta Lorenzo Ferrari convidou-me para participar de um tal sarau na Rua Caiubi, 420, em Perdizes, Sampa. Disse-me que havia um outro “tal”, chamado Vlado Lima, o comandante do lugar. Na noite marcada, para lá fui. Para aumentar minha insegurança, nem o Ferrari nem o Vlado Lima compareceram (ambos justificados pelas mais nobres razões).
Ainda assim, foi um dos maiores acontecimentos da minha vida — algo mágico, transcendental, acreditem! Entre tantas irreverências e poesias para todos os gostos, havia uma sopa de letrinhas (de verdade) para repor o alfabeto gasto. FOI DEMAIS!
E o melhor ainda estava por vir: ao final, ocorriam sempre as apresentações dos compositores da casa. Um ou dois subiam ao pequeno-gigante palco: voz, violão e canções autorais — somente autorais. Para minha sorte, foi a primeira vez que ouvi TITO PINHEIRO. Ele se equilibrava no banquinho, esquecendo a letra algumas vezes (compreensível, dado o ambiente noturno, as conversas mil, os corações abraçando corações e os shots…), mas transbordava talento, carisma e musicalidade. Virei fã de carteirinha, e tenho dito: TODO MUNDO AMA O TITO!
De repente, chega um cara com a voz no último volume: “Fiscalização sanitária!” e solta uma tremenda gargalhada. Era Zé Rodrix: carne, osso, sangue, alma e muita voz (“Soy latino americano
e nunca me engano” e sua “Casa no Campo”)! O patrono do lugar, carimbando a autenticidade dos novos talentos.
Nota: Vale salientar que, em outras incontáveis vezes, também vi o Tavito com suas canções — “Casa no Campo”, “Rua Ramalhete”, “Naquele Tempo”, “Começo, Meio e Fim”… Sempre acompanhado de sua inseparável Celina, seu amor, e às vezes trazendo amigos como Renato Teixeira, Guarabyra e outros mais.
Como havia uma bananeira em plena calçada, bem diante do portão do Clube Caiubi, que acabou tornando-se um ícone e ponto de encontro para o “fumódromo”, “bebódromo” e “risódromo” dos frequentadores, surgiu esta pequena homenagem:
ATRÁS DA BANANEIRA
Homenagem ao Clube Caiubi Autor: Nilton Bustamante
O que faz uma bananeira
Erguida bem na calçada,
De cacho e coração,
Olhando para o chão?
O metro quadrado do bairro
É maior que meu salário,
Mas não tem preço deparar-se
Com esse símbolo resistindo ao imobiliário.
Dos carros que passam vêm os olhares,
Sem entenderem o que se passa:
Uns caras de copo e violão,
Rindo e cantando, parecendo alucinação.
O que faz uma bananeira
Plantada há 500 anos pelo índio Caiuby,
Servindo de abrigo para as almas libertárias
Agredidas pelo “psiu” das vozes reacionárias?
— Essa bananeira de ilha de pirata
Subverte a ordem da cultura otária,
Que pensa que é muita coisa,
Mas não é povo, é somente mercenária. —
Oh, bananeira em lacrimosa seiva!
Chora o silêncio das sementes adormecidas!
Quem não sabe que a madrugada se alia à boemia
É escravo do poder de mente vazia.
A tribo “natureza humana” é Caiubi!
Os corsários da anticultura são Caiubi!
Os compositores das artes são Caiubi!
Só as gentes livres e felizes não dormem de pijama!


