O patriota burguês

O burguês é aquele inserido na mercantilização da vida, a sua e de outros. Um dos pontos centrais da crítica clássica é a tendência de transformar tudo em mercadoria. Valores humanos, arte, lazer e até relacionamentos passam a ser medidos pelo seu valor de troca e não pelo seu valor intrínseco.

Na questão das artes, posso falar com um exemplo prático, organizei muitos leilões de artes, entre 1987 a 1991. Com a pratica, sabia o que vender, quem convidar e como ofertar. Burgueses são ignorantes e não compram arte, comprar status e valores.

Valores humanos são substituídos por conceitos de conservação e manutenção do que eles chamam, a própria riqueza.

O efeito: A “coisificação” das pessoas, onde o indivíduo vale o que produz ou o que possui. Geralmente nunca produziu para a humanidade e nem para ele, produziu para um dono. Ele é um vencedor de acordo com o que acumulou na vida, casa, carro, joias, etc. Conseguidas com trabalho e servidão, onde numa escala menor, poderia descontar a própria servidão em empregados de menor status social, subalternos a ele, ou na casa, com domesticas, na contratação de serviçais para serviços em construção, manutenção, etc.

Acumulação primitiva e obsessiva, fazem parte de suas vidas, muitas vezes, até porque, na infância, invejavam o outro, acreditando no poder que viria do acumulo. Eles teriam tudo e mais, mesmo que morressem tentando e, esse morrer, não se refere-se apenas ao fim da vida, mas a morte em vida. Ou a vida substituída pelo fazer, para ter.

A lógica burguesa é movida pela necessidade de expansão constante. Para o capital não estagnar, é preciso lucrar sempre mais do que no ciclo anterior. Acabar com o estado, criar um mundo de compras e vendas, onde nada é básico, ou social, mas tudo parte do mercado. A saúde, a educação, a segurança, etc., fazendo com que o mérito esteja em ganhar, para compra tudo, não viver com direitos a tudo, ou ao básico.

Isso gera uma busca desenfreada pelo lucro que muitas vezes ignora limites éticos, ambientais ou o bem-estar social, priorizando o capital sobre a vida, o trabalho sobre o lazer, a ignorância sobre a cultura, uma vida medíocre sobre o prazer.

Hipocrisia moral e moralismo são fundamentados na religião. Afinal sem religião os pobres matariam os ricos. Historicamente, a burguesia consolidou-se pregando valores como “liberdade, igualdade e fraternidade”, mas críticos argumentam que esses direitos muitas vezes foram aplicados apenas à própria classe, essas 3 palavras só poderiam ser válidas aos burgueses, já que, aos pobres a liberdade se resumiria ao seu gueto, como privatizar praias, onde apenas quem pode frequentar são os escolhidos. A igualdade será apenas aos olhos de um deus, e aí entra a importância da religião, na regulamentação do mérito, e a fraternidade na esmola, ou emprego, onde o burguês se torna nobre, ao gerar uma vaga, que na verdade ele necessita, para sua própria sobrevivência, ou crescimento de seu negócio. Ford não produzia seu próprio carro, em todas as fábricas, são os empregados, pobres, que produzem.

Os burgueses defendem a liberdade de mercado, mas muitas vezes buscam o auxílio do Estado para proteger interesses privados ou manter desigualdades estruturais que garantam mão de obra barata. Não são contra o plano safra, isenção de impostos para importações, financiamento a baixo custo para industrias, gordas aposentadorias para eles próprios e alguns setores sociais, mas gritam diante de um auxilio gás.

A cultura burguesa, ou melhor, costume, pois usar a palavra cultura, na ignorância, não é certo, elevou o indivíduo ao centro do universo. Embora isso tenha trazido avanços nos direitos individuais, também gerou um isolamento social.  A implosão do sentido de comunidade é latente. O sucesso é visto como um mérito puramente pessoal, ignorando as redes de privilégio e a infraestrutura pública que tornaram esse sucesso possível. Sucesso, vamos deixar claro, somente aos olhos deles próprios e seus vizinhos, ou subalternos, que desejariam trilhar o mesmo caminho.

O termo “filisteu” foi muito usado por artistas e intelectuais do século XIX para descrever o burguês que, apesar de ter dinheiro, carecia de profundidade intelectual ou apreciação estética real, ou, em outras palavras, são os mantenedores da cafonalha. Em todos os sentidos. A vida se torna uma busca por conforto material e segurança pessoal, muitas vezes resultando em uma existência superficial e desconectada das questões existenciais mais profundas. São condôminos de um grande manicômio exibicionista.

Uma vez estabelecida no poder, a classe burguesa tende a se tornar conservadora no sentido de proteger suas propriedades e privilégios. Deles e de seus iguais, pois sabem que necessitam de outros como eles, para a manutenção do poder. Pequeno poder. E é isso que os leva resistência contra reformas sociais necessárias ou à manutenção de sistemas de exploração, sob a justificativa de manter a “ordem e o progresso”.

Ordem e progresso que ignora o sentido de nação, podendo apoiar o total entreguismo e a recolonização do país, desde que seu status continue o mesmo. Ainda assim se julgam patriotas.

Antonio Sonsin

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