21 de março, Dia Mundial da Poesia, não é um dia qualquer. É o marco da esperança de que há alma dentro das trincheiras do corpo; algo que se superou e se libertou, como a delicadeza de uma flor rompendo a impossibilidade do concreto.
E eu, um aprendiz da poética, aproveito para homenagear meu mais nobre amigo poeta, Norberto de Moraes Alves. Manifesto minha alegria pela oportunidade de escrever o prefácio de sua obra, LUZ VIVA EM NOVOS SONHOS, a ser lançada no dia 31 de março de 2017, na Câmara Municipal de Bragança Paulista, SP, às 20h.
Prefácio
Sobre a obra “Luz Viva em Novos Sonhos”, de Norberto de Moraes Alves
Escrever é assumir uma responsabilidade com as “palavras-universos” e seus portais.
Quando fui pela primeira vez à residência do poeta Norberto de Moraes Alves para conhecê-lo em carne, osso e poesia, vivi um acontecimento marcante. Daquelas coisas em que a vida não pede licença, não nos avisa e nos deixa “de calças curtas”: o chão se vai e não diz quando voltará…
No ambiente elegante — e mais elegante ainda o anfitrião —, forma-se outra ponta do triângulo: no alto, um retrato em moldura de madeira entalhada com cachos de uvas, onde um lindo sorriso feminino invade toda a sala. O olhar azul do poeta desbota-se. Lágrimas lavam-lhe um pouco mais a alma. Ele fala-me da jovem; fala-me, com palavras-universos, dos portais do amor.
Ali começaram meu respeito e minha admiração pelo ser humano que se tornou poeta há muito. Ele não se inibiu ao emocionar-se diante de um estranho, logo na primeira visita. Sentimento jorrando sem disfarces: foi o que presenciei.
— Sim, quando o ser humano deixa de ser pedra e consegue sensibilizar-se a ponto de transmutar a emoção em algo que se solta — talvez a própria alma, ladeira abaixo, em forma de lágrimas e alquimia —, esta é a sua iniciação para a poética da vida. Emocionar-se ao ver, ao longe, o abraço apertado de um casal ao léu; o abrir das pétalas em outros abraços à luz da existência; sentir o coração apertado diante da injustiça; acreditar e tirar os pés do chão sem medo das alturas e sem se deixar levar pela crença no impossível; esquecer todos os limites, trafegar das estrelas aos lábios em segredo, conhecer os códigos das palavras em delicadas tramas de arte, visitando, com bandeiras corajosas, as partes mais desconhecidas da própria alma…
Pois bem, alguns anos se passaram…
Encontrei-me há poucas semanas com o poeta Norberto, outra vez em sua residência, na “Cidade da Poesia”, Bragança Paulista (não poderia haver lugar melhor). Logo pensei: a poesia deve estar lhe fazendo bem; é o que lhe mantém a vida. Estava aparentemente sereno, mas seus olhos — outra vez, os seus olhos — o denunciavam. Havia inquietude. Chamou-me a atenção sua aparência e seu jeito, pois o “Norba” parecia o irmão gêmeo de Dom Quixote, de Cervantes. A elegância, a nobreza, a poesia como alimento, o amor entre os dedos e a coragem de produzir uma nova obra no auge de suas oitenta e cinco primaveras — primaveras que libertam as flores do frio e, na alma, a força da Luz Viva em Novos Sonhos.
Li o “boneco” do livro pois, à moda de Carta a Garcia, veio-me o convite para escrever o prefácio. Tarefa agradável e de grande significado. Uma honra. Ao passar por cada palavra-universo, cada verso e frase em prosa, senti a delicada matéria-prima de uma alma livre; a alma do poeta de olhos azuis acostumados a desbotar-se a cada sublime emoção.
Tentei seguir o imaginário do autor, repleto da sabedoria daqueles que assistiram aos rios dobrarem-se pelas esquinas e conhecem suas correntezas e profundezas — o que é perigo e o que é diversão. Encantam-se com os reflexos do sol e das estrelas sobre os espelhos d’água como se fosse sempre a primeira vez… A cada camada de linhas lidas, as pérolas foram se amontoando, enriquecendo meu coração de leitor.
O que dizer de trechos como: “Se apesar de tudo, não conseguir marcar de amor minha vida, então não serei capaz de me sentir humano e de me pensar poeta…” ou “Por que a pressa? A estrada é longa e mal começa”, e ainda, “Preciso tanto saber de mim”? Não destacarei mais preciosidades para não roubar a surpresa dos futuros leitores e dos inúmeros fãs do poeta.
Esta obra que nasce, Luz Viva em Novos Sonhos, não é promessa em vão. É a mais nova esperança de se lidar com saudades, amizades, amores possíveis e desesperos necessários. E o mais importante: é a chance de conhecer esse “caminho de flores azuis” do poeta Norberto de Moraes Alves.
Nilton Bustamante
Escritor e Poeta
— Deixando de ser pedra, após ler este livro do poeta Norberto “De La Mancha” de Moraes Alves. —
21.03.2017


