Por Nilton Bustamante (em desdobramento da alma)
Avenida Ipiranga com a São João, cidade de São Paulo. Está escuro, é noite. Mas não por isso o lugar está igual ao que é nos dias de hoje. Há algo que parece arquibancadas totalmente lotadas. Tudo está caiado.
Algo extraordinário acontece.
Alguém, na avenida, pega um violão e começa a tocar “à la” Baden Powell. O som se espalha, eletrificado, pelo ar. Tudo muito alto, no entanto, de extraordinária beleza — um som limpo. É um samba bem “para cima”, agitado, que motiva a todos. Vejo em minhas mãos um tamborim e entro no coro de outros tantos sem a menor cerimônia. Logo eu, que tenho “duas mãos esquerdas” para qualquer tipo de ritmo, mas, sim, estou no compasso, acompanhando o movimento e os acordes do violão em uma deliciosa explosão musical.
Nisso, um homem negro aparece tocando uma espécie de reco-reco metálico, que eleva o tom, sobóe o ritmo e aumenta a alegria das notas. O agrupamento dos instrumentos resulta em uma harmonia indescritível. Reconheço esse músico do reco-reco e penso em voz alta: “É o Antônio Carlos!” — Mussum, artista e músico brasileiro que tanto sucesso fez nos anos 70 e 80.
Quando imagino que a canção instrumental está por terminar, tendo já chegado ao seu auge, entra o som em “mil megatons” de um trombone que lembra o do Bocato — trombonista muito conhecido em São Paulo. Aí, tudo vai para o céu. Sim, esse samba instrumental só pode ser algo dos céus, não da Terra. Algo que nunca, em toda a minha vida, havia ouvido. Uma música alucinante que beira a perfeição, causando em todos os que ouvem e assistem um arrebatamento, um frenesi.
De maneira sincronizada, a música acaba. Nisso, há um rodízio dos instrumentos para outros pares, outras pessoas. Eu mesmo entrego meu tamborim para outro senhor de pele negra, que se senta ao meu lado, no chão da avenida. Começa, agora, um outro samba, este de notas curtas. É o convite para que uma enorme quantidade de pessoas se apresse e comece a dançar, seguindo o ritmo com passos miúdos, acompanhando ou sendo acompanhadas pela sintonia musical. Uma beleza.
Observo melhor as pessoas e verifico que todos naquele lugar estão com roupas brancas; têm rostos brancos ou parecem pálidos. “Espere. Estão também caiados… E o Antônio Carlos, o Mussum, não havia falecido? O que está fazendo aqui?”, indago a mim mesmo. Percebo, então, que ali todos estão mortos no corpo físico. São espíritos, desencarnados.
Alguém se aproxima e, mentalmente, me esclarece: “Esses nossos irmãos estão fazendo, agora, o samba da passagem”.
Com essa frase final, entendo, de vez, que todo aquele cenário — o samba instrumental e o clima — era o pretexto, o convite para que nossos irmãos fizessem a passagem do psiquismo humano, do mundo material dos homens, para a Pátria Celestial.
Ao tomar consciência de que estou em desdobramento da alma, sou trazido de volta para meu corpo, que descansa no sono da noite. Não havia mais nada para fazer ou apreciar naquele lugar. Agradeço a Deus e à Espiritualidade bendita por essa experiência, pela oportunidade de aprendizado e por mostrar-me, e a outros mais, o que se passa do “lado de lá”, que é apenas o lado de muitos outros.


