A contenteza do triste, tristezura do contente
Vozes de faca cortando, como o riso da serpente
São sons de sins, não contudo, pé quebrado verso mudo,
Grito no hospital da gente (“Beraderô” – Chico César)
Como todo bom começo de ano, me dedico à prospecção de novos clientes e o design de novos produtos. Este ano, estamos envolvidos com as discussões sobre a NR 1 e a questão da saúde mental nas empresas, estudando porque as pessoas ficaram tão insanamente sem qualidade de vida (?!).
A emergência em trabalhar saúde mental preventiva escancara o cenário de razões e fatores que geram tanta angústia, estresse, depressão, transtornos, evocando traumas profundos e escalando para outras patologias. Quando a narrativa do mundo nos vende a felicidade como algo possível (mas inatingível), vamos nos escorando (e alienando) em álcool, trabalho, anfetaminas, sexo, junkfood, vídeos, antidepressivos, fama, consultórios, gurus, religião, todas construções apartadas da natureza e da humanidade (exceto talvez o sexo e a canabis).
Uma das primeiras percepções é a desumanização das relações pessoais – é importante resgatar as interações humanas presenciais; entendemos que o isolamento gerado pelo mundo digital atrofia nossas habilidades relacionais. O contato pessoal gera troca de energia anímica, permite o contato do olhar, a percepção das nuances dos gestos e posturas corporais, conseguimos sentir a tristeza, o medo, a alegria do outro, e nos deliciar com os risos ou a euforia dos insights coletivos.
Outro fator é a oportunidade de criar espaços de reflexão sem o risco de narrativas dogmáticas – encontros presenciais com poucas pessoas, de participação espontânea e poucas regras, que flexibilizem a escolha de temas e a partilha de percepções, conceitos e valores – a cada encontro, novos e velhos participantes podem experenciar algo que perdemos com o tempo – a práxis dialógica – ou a dialética esquecida por uma sociedade que nos impõe de forma brutal seus deuses, ritos e sua justiça distorcida.
Estes encontros potenciais, que estamos chamando de “Balanço Geral”, são exatamente isso – um funil com diversas ideias (contaminadas ou não), onde podemos elaborar e simbolizar valores (honra, coragem, poder) e refletir sobre dinheiro, religião, ambiente, família, política, trabalho e o que essas coisas realmente significam em nossas vidas.
O Balanço Geral não deixa de ser terapêutico, certamente uma oportunidade de peneirar e limpar o que vem entupindo o sótão e os porões de nossa existência, compreendendo como este mundo funciona e como queremos fazer a ponte entre nosso passado e futuro… enfim, o espelhamento saudável de nossas “verdades” junto a quem também sofre como nós, ampliando nossa capacidade de observação crítica de valores e comportamentos alheios como fenômenos próprios da nossa sociedade, sem julgamento e sem confrontos egóicos de ideias e opiniões.
Percebo o ano de 2026 como o “ano-luz”, pela significância das transformações a que estamos sujeitos contra a insignificância de nossa capacidade de mudar ou influir no meio externo. Quando a doença não apresenta cura conhecida, devemos no mínimo estudá-la! Ou vamos sucumbir ao conformismo em relação ao sistema que nos engole e nos destrói. O Balanço Geral, mais que uma metodologia, nasce como uma postura perante o mundo, que faz sentido para quem está esgotado em seguir os mesmos caminhos de sempre – gastar um pouco de tempo, compartilhar ideias e experiências, clarear a mente e achar novas formas de ser e viver neste planeta!


