No tempo da delicadeza
Autor – Mário Doro
Um fenômeno cada vez mais evidente do nosso tempo é a escassez de delicadeza, de educação e de respeito ao próximo.
A delicadeza, que sempre foi um elemento essencial da convivência humana, parece ter se tornado dispensável.
Com o advento da internet e das novas tecnologias, tudo passou a ser rápido, direto, funcional — e, muitas vezes, desprovido de contato humano.
Hoje, em muitos restaurantes, um tablet substitui o diálogo: faz-se o pedido sem olhar, sem escuta, sem troca. Surge então a pergunta inevitável: a tecnologia está apenas facilitando processos ou está, silenciosamente, eliminando aquilo que torna o ato de se alimentar um momento humano, social e agradável?
Vivemos tempos em que as pessoas parecem permanentemente armadas — não com argumentos, mas com agressividade. Qualquer frase se transforma em gatilho para reações violentas, verbais ou até físicas.
Compartilhar conhecimento tornou-se um desafio. Ouvir o outro, um exercício raro. Aceitar diferenças, quase um ato de resistência.
Durante décadas, artistas e compositores brasileiros celebraram a delicadeza como forma de viver, como postura ética diante do mundo. A sensibilidade era força, não fraqueza. A palavra vinha antes do grito. O afeto, antes do confronto.
Hoje, no entanto, a intemperança se normaliza. A grosseria se justifica. A violência gratuita se banaliza.
Resta então a pergunta que não quer calar:
há solução para essa perda coletiva de sensibilidade ou teremos de nos adaptar a um mundo onde a falta de educação, o desrespeito e a brutalidade passam a ser regra?
Talvez o maior ato de rebeldia contemporânea seja justamente este:
continuar escolhendo a delicadeza.
A delicadeza como resistência cultural
A música brasileira sempre foi território fértil para essa ideia de delicadeza como valor civilizatório. Basta lembrar:
Chico Buarque, que transformou o cuidado com a palavra em gesto político.
Caetano Veloso, para quem sensibilidade e pensamento caminham juntos.
Gilberto Gil, que sempre defendeu o afeto como tecnologia ancestral.
Milton Nascimento, cuja obra inteira é um manifesto silencioso pela empatia.
Eles nos lembram que delicadeza não é ingenuidade.
É escolha.
É consciência.
É humanidade em estado ativo.


