Da Satisfação ao Sentido

Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo.”


Essa frase de Lacan ilumina com precisão a fronteira invisível entre o que aprisiona e o que liberta nos vínculos. Lida para além do literal, essa frase aponta para um movimento essencial da vida psíquica: a passagem da compulsão para o sentido.

O gozo, nesse contexto, não é o prazer do encontro, mas a satisfação instantânea que vicia. Ele se manifesta em repetições automáticas — consumir, responder, insistir, correr atrás, preencher o tempo, anestesiar a angústia. Não exige vínculo, apenas descarga. É rápido, intenso e logo esvaziado, produzindo ansiedade justamente porque não constrói nada. Quanto mais se repete, menos satisfaz. O gozo prende o sujeito no fazer incessante, desconectado de sentimento e de elaboração.

O desejo opera de modo oposto. Ele não pede urgência, pede tempo. Não se satisfaz na repetição, mas na construção de sentido. O desejo implica falta, escolha, direção. Ele não busca apenas aliviar a tensão, mas sustentar um movimento interno que transforma. Onde há desejo, há pergunta; onde há gozo, apenas resposta imediata.

É o amor que faz essa mediação. Amar, aqui, não é romantizar, mas dar valor simbólico à experiência. O amor introduz pausa, limite e cuidado. Ele impede que a satisfação instantânea se torne tirânica e permite que o prazer seja atravessado por significado. Quando há amor — por si, pelo outro ou pela própria vida — o gozo deixa de ser compulsão e se torna consequência. Ele se curva ao desejo porque já não precisa dominar.

Sem amor, vive-se na lógica do excesso: muito fazer, muito sentir, pouco compreender. Com amor, o sujeito aprende a suportar a falta sem se anestesiar, a desejar sem se perder na urgência de satisfazer tudo agora. É nesse ponto que o gozo condescende: quando aceita não ser tudo, quando se submete àquilo que tem sentido e duração.

Patricia Iara

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