NETFLIX, TIKTOK E INSTAGRAM: COMO A GERAÇÃO ANSIOSA ESTÁ MATANDO A ARTE

Nos últimos tempos começou a circular uma informação curiosa sobre os bastidores da NETFLIX: a ideia de que algumas séries estariam sendo pensadas para serem assistidas enquanto o espectador está dividindo a atenção com o celular. Personagens explicando demais o que está acontecendo, diálogos óbvios, cenas que praticamente se narram sozinhas. Tudo isso para garantir que, mesmo com o olhar dividido entre a TV e o Instagram ou TikTok, ninguém se perca na história.

A verdade é que estamos cada vez mais ansiosos para consumir tudo rápido. Maratonar virou regra, assistir em velocidade acelerada virou hábito, e existe quase uma pressão social para terminar a série logo, antes que surjam spoilers ou que o assunto morra nas redes. O entretenimento deixou de ser algo para saborear e passou a ser mais um item na lista de tarefas: assistir, comentar, passar para a próxima coisa. E, nesse ritmo, o próprio ato de assistir virou uma atividade secundária, sempre acompanhada de outra tela, outra notificação, outro estímulo.

As redes sociais com feed de vídeos curtos têm um papel enorme nisso — e não é por acaso. TikTok, YouTube Shorts, Instagram… tudo é rápido, intenso, chamativo e feito propositalmente para entregar pequenas doses de dopamina a cada poucos segundos, mantendo o usuário preso o máximo de tempo possível na plataforma. Esses aplicativos são projetados para viciar, para não dar espaço ao tédio, para transformar qualquer pausa em oportunidade de mais consumo. O cérebro vai se acostumando a esse padrão e começa a achar qualquer narrativa mais lenta “entediante”. Manter foco por 90 minutos em um filme, sem checar o celular, vira um desafio real. Não porque a história seja ruim, mas porque fomos condicionados a precisar de estímulo constante, imediato e ininterrupto. É um treino diário para a impaciência, para a distração e para a incapacidade de sustentar atenção.

E é aí que entra um problema ainda maior do que a NETFLIX simplesmente “emburrecer” seus roteiros para o público assistir mexendo no celular. Parte da indústria passou a moldar suas histórias para competir com o aparelho. A cada poucos minutos precisa ter uma reviravolta, um choque, um corte rápido, uma explicação em voz alta do que está acontecendo, como se o roteiro tivesse medo de perder o espectador por mais de trinta segundos. Se não tiver explosão, mistério, revelação ou piada constante, o risco é a pessoa pegar o celular e “sair” da narrativa. Aos poucos, isso vai empobrecendo a linguagem audiovisual, porque histórias mais sutis, contemplativas ou baseadas em diálogo passam a ser vistas como inviáveis comercialmente.

Por isso eu tenho uma admiração enorme por quem simplesmente ignora essa lógica e continua fazendo arte do jeito que acredita. Vince Gilligan (Breaking Bad), por exemplo, sempre apostou em ritmo, silêncio e construção lenta de personagens. Mesmo assim, Pluribus, sua obra mais recente, foi duramente criticada por ser “parada demais”. Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street, O Irlandês) então, nem se fala: filmes longos, diálogos extensos, personagens complexos. Ele faz cinema que exige entrega do espectador, não consumo apressado. E, justamente por isso, vira alvo de críticas de quem já não consegue mais se sentar e simplesmente prestar atenção por algumas horas.

No fim das contas, o que estamos vendo é uma indústria cada vez mais moldada por cérebros impacientes, treinados por algoritmos que vivem de sugar atenção. Séries viram produtos explicativos, filmes viram montagens de momentos chamativos e o silêncio, a pausa e a construção cuidadosa passam a ser tratados como defeitos. Não é só uma mudança de gosto, é um rebaixamento de expectativa: se antes a arte puxava o público para cima, agora muita coisa está sendo empurrada para baixo para caber na atenção de quem não larga o celular nem por um episódio.

 

Manzini Anderson Tadeu

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